O deambular da ilusão

Sabes quantas vezes acreditei e em quantas delas perdi a aposta? Sabes quantas confiei e me desiludiram? Dei por certos passos que me falharam. Não quero ouvir-te dizer que é este o caminho, que é a vida dos adultos, eu nem sou adulta, nem quero isto para mim. Essas pessoas... Essas que me dizem tanto, que povoam os meus dias, que vivem a mesma realidade que eu... Pensas que é fácil ver-lhes os risos desfazerem-se em estilhaços, apanhar-lhes os cacos e dizer “deixa lá, é assim a vida, isso passa”? Pensas que não revolta, que não apetece devolver-lhes os sonhos intactos, mas tudo é uma ilusão... O nosso deambular da ilusão.
Pensei que encontraríamos o caminho, um dia. Pensei que estávamos a projectar os nossos sonhos no futuro, mas afinal eram só as inseguranças que reflectíamos. Agora vejo-me cara a cara com os meus fantasmas e sento-me à mesa com eles. Admite que isso não fazia parte dos nossos planos. Não é necessariamente mau, não é tudo intrinsecamente mau. É só esquisito, esquisito que depois de tantas subidas e descidas ainda me procure por aí. Esquisito que o mundo continue a escorregar-nos como areia entre os dedos e que, no sentido inverso, a nossa ânsia de o segurar se vá desintegrando em pedacinhos coloridos que brilham por um instante diante dos nossos olhos e desaparecem. Deixo-os ir com a corrente dos pensamentos reciclados e dos instintos falhados. Cansei-me de batalhas perdidas. Diz-me se ainda acreditas nos mistérios que, um a um, ainda vamos desvendar. Se o nosso clube das chaves tem coragem suficiente para continuar. Ou se nos cansámos tão cedo das contradições de uma existência banal.
Quero beber a essência das coisas, a violência dos sentimentos, a intensidade dos momentos, que nos esgotam e renovam. Quero o que ainda há por oferecer. Venham as ilusões, se preciso delas para viver. Deambulando por aí, vou-me encontrando em mim. Entre o cansaço de um momento e outro, entre as revoltas e as frustrações, há a magia das coisas simples, daquele olhar, de uma conversa esfumada no tempo, da cinza das memórias que as horas arrastam... Não estaremos derrotados enquanto estivermos vivos.