segunda-feira, abril 09, 2007

Promessas vãs



Se não te importares, vou quebrar todas as regras. Quando não estiveres a olhar, vou dizer que te adoro, desenrolar a história que não nos pertence numa narrativa desapaixonada [que interessa se o teu longe esteve sempre tão perto?], passar o dedo sobre as cartas e sentir a textura dos momentos que descuidadamente esqueceste nelas. Vou certificar-me que nenhum centímetro do teu rosto escapa, impune, ao meu beijo mimado. E não vou pedir desculpa.

Não é que eu sinta saudades [eu não preciso de ti]. O lapso de tempo que o nosso orgulho consumiu ensinou-me que não és insubstituível. Nem tu, nem o teu mundo que, imprudentemente, entoa a minha poesia. Sei que um dia [qualquer dia] uma de nós bate a porta, sem complacência pelo horizonte que não sonhamos em conjunto. Conheço-te os juízos implacáveis, respeito-te a personalidade de ferro impecavelmente adornada de rendas e puro algodão.

[Mas hoje um sorriso veio acordar-me os solfejos da tua voz.]

Saboreio a imperfeição dos nossos ritos tribais. Não deixes nunca que a adoce, chama-me traidora e grita comigo. Os passos que rasguei à areia fria, a lenha que não nos aquecia, a passividade imperturbável da cidade, tudo isso são segredos. Inconfessáveis, como juras de uma ordem milenar. Prometo calar os suspiros quando o seu murmúrio sonolento me vier despertar, dizendo, em tom cúmplice, que me sabe o sorriso no escuro. Prometo não falar dos abraços coreografados, dos arrufos ensaiados, da tua censura implícita numa insubmissa lealdade. Não vou partilhar as insónias em frente à lareira, a música irrompendo pelo silêncio esponjoso da noite rural que galgámos, o desgaste dos risos. E, quando me perguntarem o que vi em ti, vou usar de um lugar comum e nunca vou admitir que o teu jeito felino me fascina. Não duvides, eu vou remeter o meu silêncio para todos artigos do princípio de independência que nos é tão caro [riscar os diálogos insólitos, as coincidências de novela vulgar, os videoclips dos anos 80, passar corrector e reescrever um insalubre “foi uma boa semana"]. Mas, na minha deixa, vou desenhar-te um coração no papel a saber a velho, e, enquanto rabisco uma patética declaração em inglês, lançar-te um olhar e dobrar a esquina do teu caderno.

Depois deixo-te sozinha com o teu mundo de palavras vívidas, dando corda às fantasias de Virgínia Woolf, reinventando a melancolia.

[Eu prometo.]

9 comentários:

pecado original disse...

Se prometes esta prometido espero é que a promessa não seja vã :)

bonitas e simples palavras ;)

Toutinegra Futurista disse...

Obrigado por ter participado nas minhas aventuras.
O que dizer deste seu texto? Forte, com personalidade marcada, bem escrito. Parabéns.

Joaninha disse...

Espero que, um dia, venha a revelação da fonte desta inspiração!... É incrível como nos inspiramos com aquilo (aqueles) em relação aos quais dizemos, como dizes, "eu não preciso de ti".

Marta disse...

“E, quando me perguntarem o que vi em ti, vou usar de um lugar comum e nunca vou admitir que o teu jeito felino me fascina.”
Prometo que nunca te direi o quanto tenho saudades do tempo, em que nenhuma de nós sonhava bater com a porta!

xana disse...

sei que é para mim.deixa-me feliz. eu vou sempre deixar-te ser quem és e isso é o que para mim a amizade significa. sermos nós em qualquer circunstâncias. vou sempre que achar que as palavras certas, no momento certo, seriam capazes de mudar o mundo e por isso espero por esse momento e aí é que reside a minha lealdade, o meu respeito por ti. é a rebater a tua visão de justiça que a respeito ( percebi isto, estes dias).
apetece-me dar-te umas palmadas com medo que te magoes e estranho, mas sabe-me bem.sei que não foram os melhores dias das nossa vidas. não foram, sei-o bem. não por mim, ou por ti, ou por quem quer que fosse.estávamos um pouco virados para nós.mas a lenha, ainda assim, ardeu para todos. tenho a sensação que devia ir ter contigo a tua casa para falarmos horas, espero que haja sempre algo para dizer. e vou um dia destes.
reservaste-me um espaço no teu pequeno (grande, indissociável) mundo que é esta janela.
senti-me confortável nas suas sombras. hoje fui correr.
alguém me disse ,um dia,« és assim»:
'E é claro que ela sabia gozar a vida.Era algo que fazia parte da sua natureza (embora, só Deus o sabia com certas reservas; ele próprio sentia, por vezes,após todos aqueles anos, que apenas conseguia traçar de Clarissa um mero esboço).De qualquer modo, não havia nela amargura; nem vestígios desse sentido da virtude moral que tão repulsivas torna certas boas mulheres. Ela apreciava praticamente tudo.
(...) (mrs. dalloway, virginia woolf)
vou-te convidar para irmos para a tua varanda pintar as unhas dos pés.vou-te levar umas laranjas num saco, e sorrir para o teu sorriso.

S. disse...

pecado original,

E não são todas as promessas [desabafos de um momento de duração incerta] vãs?

toutinegra futurista,

O mesmo posso dizer da sua visita. Obrigada por construir um momento para receber as minhas palavras.

joaninha,

Aprendi que, por vezes, não depender de alguém é a melhor forma de se gostar dessa pessoa. Saber que se está, mas que poderia não se estar e [ainda assim] querer estar. Aprendi que "adoro-te" e "não preciso de ti" podem vir na mesma frase e que a sua conjugação pode, curiosamente, ser muito poética. No que respeita à revelação, ela aconteceu... naturalmente :)

marta,

Não sonho partir, mas tenho rasgos de lucidez que me permitem reconhecer que os fascínios são fugazes. Talvez bater a porta seja apenas um esmorecer das convulsões de uma paixão amordaçada. Gosto da doçura infantil de um "para sempre", mas não acredito nele.

xana,

É da tua amizade o que eu quero, a palavra mordaz mas verdadeira cicatrizando a ferida e o sumo das laranjas discorrendo uma incontinência de palavras. Ora inflamadas, ora entediadas. E até nos silêncios saber que és tu, até quando a tua justiça ameaça as minhas verdades... Saber de tudo isso que é um resquício de sanidade no mundo de loucos que rodopia à nossa volta. Aparece, sabes que a porta está aberta. Nem sempre são precisas palavras.

viking disse...

Quem te lê é privilegiado, até as tuas respostas (a quem comenta) são poéticas...
A tua maturidade e lucidez, enternecem-me.
Sei que vais orientar sempre essa tua personalidade vincada para a justiça que hoje defendes. És já uma Grande mulher!

happiness...moreorless disse...

Texto lindo*
Desabafos sinceros...muitas vezes não os sabemos cumprir, por isso escrevemos...é mais fácil viver nas palavras. As palavras percebem-nos melhor que ninguém.

****

S. disse...

viking,

É saboroso sentir a reciprocidade nas tuas palavras. Privilegiada sinto-me eu por ter uma janela à sombra do mundo, onde posso despojar-me de máscaras e preconceitos e saber que, aos vossos cálidos, a nudez da minha alma é uma espécie de força. Não vou deixar nunca de sentir a excitação miudinha cavalgar-me no peito em cada comentário, de querer retirar de cada concha uma pérola e ficar curiosa por saber o que ela espelha nas vossas vidas. Obrigada por me ajudarem a crescer. [Tu já sabes que da tua justiça bebo o modelo, com um orgulho que me sacode a alma. Tu sabes que és sangue a ferver-me nas veias.]

happiness... moreorless,

Há uma espécie de vida oculta nas palavras escritas que fala daquilo que a boca tantas vezes cala. Valha-nos sempre o impulso de escrever.