segunda-feira, abril 16, 2007

Auto-flagelação





















Mastiguei o horror da morte numa ceia oportuna
[Sempre ajuda a engolir melhor as lágrimas]
Como um vício antigo e pardacento
Que me dá às faces aquele ar descolorido e lamacento
Um pouco trágico até,
[É de bom tom ser um pouco soturna]
Preguei um previsível romantismo
Comentei desastres ambientais e genocídios
E, à noite, prenha de um estimado egoísmo
Fiz as teclas gemerem desabafos diletantes e paixões burguesas
Foi essa a história que eu escrevi.

Esperei na berma pelos ecos da chacina
Aguentei, firme, enquanto me retumbavam nos ouvidos
E cataloguei-me “sensível”
[Mas nunca deixei de fechar as persianas]
Perdi a conta das vezes que acordei
Encharcada em vómitos de silêncio
E me levantei, com as penas mutiladas,
Para viver uma vida normal.

[A compaixão é um caminho fácil]
Reza-se uns terços e compra-se a paz da alma
Afinal, ainda que os cristais retinam uma realidade deslocada
Quer-se do vinho que seja depurado de sangue
Sentamos a dor à mesa e, com uma pitada de sal,
Vamos-lhe deglutindo o remorso
Até que a verdade seja tão ténue
Que se perigosamente aproxime da ficção.

A conclusão?
Nunca fui diferente.
Não desprendi as membranas da acomodação
Fiquei-me pelas desculpas vagas
Pelas intenções que nunca jurei cumprir
Carpi as dores alheias em frente à televisão
E fiz disso um último resquício de humanidade
Sei agora que todo este tempo estive conivente
Declaro-me culpada de uma inércia pungente
E cumpro pena de auto-flagelação.


6 comentários:

viking disse...

Sentir culpa não é (de todo) o caminho. Quando "abrimos os olhos", tomamos consciência e é essa tomada de consciência que nos faz responsáveis. Nunca a culpa! Ser responsável é reagir, em vez de somente "ficar". Por favor, não mitigues qualquer culpa. Ao estares consciente em cada minuto do teu dia, reagirás de acordo com os teus padrões (sempre os positivos, não te esqueças) e isso é o suficiente para fazer muito...
Se olhares para trás confirmarás que afinal tens feito tanto, dentro do teu "pequeno" mundo... e isso é tão Importante...

Lindo... ler-te é Amar-te!

Marta disse...

Acabaste de descrever muitas vidas... muitas realidades mudas, envoltas em pena de si próprias e mudas pro mundo!

beijo

Luis disse...

Passas duas imagens que nem sempre de acordo uma com a outra.
Fazê o quê...

filipelamas disse...

Quem escreve assim só merece sentidos PARABÉNS! Nem só de Direito vivemos;) e ainda bem!

Joaninha disse...

"É de bom tom ser um pouco soturna"... Always learning!

xana disse...

pensei no que falámos e tenho vindo a pé todos os dias. :) fico contente de sentir que faço o que posso e que,ainda assim, vai haver sempre mais. preocupar-nos não é suficiente. mais uma vez deixo aqui um aplauso à Amnistia Internacional,com quem trabalho há quase um ano e que muita gratificação me tem proporcionado.