domingo, agosto 20, 2006

Uma destas manhãs

Fotografia de autor desconhecido

Queria ser a brisa que te acaricia o rosto, passar descuidadamente, imprudentemente, trazer aromas distantes e memórias incertas. Queria ser volúvel, imprevisível, deixando para trás apenas o sorriso nostálgico do que não se sabe bem se aconteceu. Deixar-me ir, como se os sonhos não me pesassem e o destino fosse construído a cada passo. Ser vento, terra e sol; mudar de cor com as estações, escrever a estória ao contrário e ler-me em cada linha. Reconhecer a poeira dos meus desejos na face oculta deste eclipse lunar, ser fiel só aos princípios que regem a minha terra do nunca e soltar todas as demais amarras. Queria dissolver-me na espuma do mar e deambular, divagar nos gestos e nas palavras e ter morada inexacta onde só quem eu quisesse me pudesse encontrar. Que a areia engolisse cada pegada de uma estória que é só minha e a única coisa que seguisse a minha passagem fosse a lembrança de dias felizes. Ser livre, amar como se nunca tivesse sido magoada, dar como se fosse princesa do meu próprio conto de fadas, entregar-me como se não tivesse nada a perder. Queria riscar ao lado, ver o mundo de pernas para o ar, acreditar que a felicidade é possível. Afagar os meus medos e embalá-los até que deixassem de doer, adormecer as inquietudes para ficar em paz com o momento, domar os desejos que me queimam os lábios, querendo apenas o que está ao alcance do meu olhar. Queria esquecer as leis e as probabilidades e descobrir que o justo é a medida dos meus instintos. Conhecer só de estrelas e marés e dos sentimentos que me habitam. Construir a eternidade com as minhas próprias mãos e deitar-me nela, sabendo que o mundo continuaria a girar, indiferente e tão íntimo aos trilhos que percorri e se foram fechando nas minhas costas.
Mas uma destas manhãs acordei sentindo-me atada aos meus sonhos. Se antes foram asas, horizontes abertos perante os meus olhos deslumbrados, agora tomam conta de mim, ditam-me o caminho, cegos às portas que se vão abrindo, inesperadamente. Sou escrava dos projectos que fiz, de cada dia que vivi, da experiência que carrego comigo, como uma âncora que me prende às metas que tracei, aos desafios que assumi, um memo na palma da minha mão que constantemente me lembra daquilo que me programei para aspirar. Uma destas manhãs descobri que há uma pessoa formada em mim, uma forma de olhar e de sentir e um punhado de fantasmas e de desejos. Descobri, constrangida, que eu sou o maior obstáculo à mudança. Uma destas manhãs percebi porque se teme o desconhecido e se amordaça a liberdade que nos cavalga no peito quando ainda não temos o peso do mundo sobre os ombros. Estremece-se perante a sombra, que se aprendeu a recear. Nada em nós foi feito para aceitar. Há lutas que se travam todos os dias, caladas, nos nossos corações e o caminho que, no fim, tomamos é sempre aquele que nos propusemos tomar. Não se pode ser simples como uma linha, um segmento de vida que expira no fim do traço. Tudo o que eu fui, vi e senti, tudo o que eu temi e sonhei, tudo... Tudo isso caminha ao meu lado, entorpece o meu cérebro com tamanha informação e avisos e superstições. Desnecessários, a vida é tão simples. Mas uma destas manhãs, eu aprendi a não ser linear.

4 comentários:

Bernardo disse...

Para mim ja es tudo...

Luís disse...

um sorriso pode ser um silêncio? :)

Helena disse...

Fiquei deslumbrada com o texto!
E sim, tens toda a razão quando dizes: "eu sou o maior obstáculo à mudança", somos nós mesmos que impomos barreiras na nossa vida, pelo que temos, pelo que já construimos e principalmente porque largar o certo pelo incerto é sempre um risco que raramente corremos. Contra mim falo, porque o meu medo talvez seja maior que o sonho, mas algum dia o sonho vai vencer o medo é apenas uma questão de saber esperar.

gostei do teu canto.

bjs

Carla disse...

cada dia que te leio,gosto mais ,quero mais e leio sempre...
Bj S.