sábado, julho 21, 2007

Apatia


Estava encostada a um canto, os traços da sua beleza vulgar fechados sobre o livro que assentava indulgentemente no joelho, praticando a desapaixonada arte de ser invisível. Sentei-me ao lado, ensaiando um sorriso. Não levantou os olhos [lia Pessoa], não tanto pela concentração como por uma vaga indiferença. Era dona de uma atenção fragmentada, de uns dedos desassossegados amarfanhando as páginas. Foi numa dessas passagens impulsivas que lhe vi as unhas descarnadas, manchadas de vermelho pelo que restou de um verniz barato. Como se tivesse ouvido o meu reparo benevolente, trincou uma delas, dando um inusitado estalido com a língua que me arrancou uma despropositada irritação. Desviei o olhar, o sol tímido desaparecera sob uma neblina diáfana e gélida. Sentindo um arrepio, lembrei-me que deveria ter trazido um casaco. Os comboios chegavam e partiam, as pessoas, na missão inglória de cumprir a sua solene rotina, espelhavam a habitual apatia. Gostava de estações, da confortável sensação de que tudo está no seu lugar e de pensar que quem parte um dia tem que voltar. Dava frequentemente comigo a fantasiar que me levantava e entrava num desses comboios, sabendo que, quando abrisse os olhos no país que me visse chegar, ainda seria eu. Nesses momentos, sentia-me mais vivo, mais lúcido, como se uma lufada de alma soprasse na carcaça seca dos meus átomos.

Olhei para o lado, ela ainda estava lá. Silenciosa e desafiadora, uma gota de água irritantemente suspensa na torneira. Não tinha nada de memorável, era translúcida e fria como uma noite de Primavera. Estava somente distraída do mundo, demasiado anestesiada sequer para lhe contar as horas. Talvez se lhe gritasse aos ouvidos, pensei, e logo a seguir tive a certeza que seria uma perda de tempo. As emoções aborreciam-na e os sentimentos eram um luxo que há muito tinha empenhado junto com o ouro que a avó lhe ia dando pelos anos, prendia-a apenas o infinito tédio de estar viva. Devia conhecer-lhe o zumbido arrastado, porque nem olhou para o relógio. Quando o seu comboio chegou, levantou-se sem barulho e sem triunfo, enfiando o espesso livro na carteira e desapareceu atrás de uma porta ferrugenta.

Não a voltei a ver. Nessa noite, fiz uma mala apressada e os primeiros raios de madrugada, revelando as manchas vivas que os pósteres deixaram na tinta desbotada da parede, encontraram o quarto vazio. No momento em que entrei naquele comboio, era eu a minha paisagem em movimento e o mundo pulsava nos estremeções do arranque debaixo dos meus pés. Foi como se tivesse saltado para a tela, assistia finalmente à minha própria história. E o medo, pensei com espanto, era sangue espraiando-me nas veias uma espécie de humanidade, não a dos ossos e dos tendões, mas a de uma eternidade sorvida no debater dos instantes que nos encaminham para a morte. A minha vida é uma obra de arte.
Não a voltei a ver, nem a ruminar minutos em estações citadinas. Nesse dia lembrei-me do tempo perdido que tinha para resgatar.

8 comentários:

White Castle disse...

Quando li o titulo do teu post, encontrei a palavra que me descreve hoje: apatia! não páro de pensar em black coffees!!! É irrestivel! Sauuuuddddadddessss!!!

Baudolino disse...

Quando o seu comboio chegou, levantou-se sem barulho e sem triunfo, enfiando o espesso livro na carteira e desapareceu atrás de uma porta ferrugenta.

E quantas vezes não lhe apetecerá que o combóio não pare, que a leve sabe-se lá para onde?

f.a. disse...

uma fotografia espectacular *

Joaninha disse...

Gostei da referência a Pessoa, das unhas manchadas com o resto de um verniz barato e da ideia de que as emoções aborrecem e os sentimentos são um luxo que se empenhou... Muito real.

marta disse...

Mais um belo texto!
Quantas xs ficamos parados na estação a ver a vida passar, sem coragem de viver?
A coragem vem de onde menos se espera, até qd, se vê alguém partir! Qd se perde alguém...

beijinhos

as-the-dust-seats disse...

oh god essa foto :O

alguem disse...

Belo texto.
Beijo :) *

Klatuu o embuçado disse...

Não te atires para debaixo do comboio... dói muito.

Dark kiss.
:)