
Estava encostada a um canto, os traços da sua beleza vulgar fechados sobre o livro que assentava indulgentemente no joelho, praticando a desapaixonada arte de ser invisível. Sentei-me ao lado, ensaiando um sorriso. Não levantou os olhos [lia Pessoa], não tanto pela concentração como por uma vaga indiferença. Era dona de uma atenção fragmentada, de uns dedos desassossegados amarfanhando as páginas. Foi numa dessas passagens impulsivas que lhe vi as unhas descarnadas, manchadas de vermelho pelo que restou de um verniz barato. Como se tivesse ouvido o meu reparo benevolente, trincou uma delas, dando um inusitado estalido com a língua que me arrancou uma despropositada irritação. Desviei o olhar, o sol tímido desaparecera sob uma neblina diáfana e gélida. Sentindo um arrepio, lembrei-me que deveria ter trazido um casaco. Os comboios chegavam e partiam, as pessoas, na missão inglória de cumprir a sua solene rotina, espelhavam a habitual apatia. Gostava de estações, da confortável sensação de que tudo está no seu lugar e de pensar que quem parte um dia tem que voltar. Dava frequentemente comigo a fantasiar que me levantava e entrava num desses comboios, sabendo que, quando abrisse os olhos no país que me visse chegar, ainda seria eu. Nesses momentos, sentia-me mais vivo, mais lúcido, como se uma lufada de alma soprasse na carcaça seca dos meus átomos.
Olhei para o lado, ela ainda estava lá. Silenciosa e desafiadora, uma gota de água irritantemente suspensa na torneira. Não tinha nada de memorável, era translúcida e fria como uma noite de Primavera. Estava somente distraída do mundo, demasiado anestesiada sequer para lhe contar as horas. Talvez se lhe gritasse aos ouvidos, pensei, e logo a seguir tive a certeza que seria uma perda de tempo. As emoções aborreciam-na e os sentimentos eram um luxo que há muito tinha empenhado junto com o ouro que a avó lhe ia dando pelos anos, prendia-a apenas o infinito tédio de estar viva. Devia conhecer-lhe o zumbido arrastado, porque nem olhou para o relógio. Quando o seu comboio chegou, levantou-se sem barulho e sem triunfo, enfiando o espesso livro na carteira e desapareceu atrás de uma porta ferrugenta.
Não a voltei a ver. Nessa noite, fiz uma mala apressada e os primeiros raios de madrugada, revelando as manchas vivas que os pósteres deixaram na tinta desbotada da parede, encontraram o quarto vazio. No momento em que entrei naquele comboio, era eu a minha paisagem em movimento e o mundo pulsava nos estremeções do arranque debaixo dos meus pés. Foi como se tivesse saltado para a tela, assistia finalmente à minha própria história. E o medo, pensei com espanto, era sangue espraiando-me nas veias uma espécie de humanidade, não a dos ossos e dos tendões, mas a de uma eternidade sorvida no debater dos instantes que nos encaminham para a morte. A minha vida é uma obra de arte.
Não a voltei a ver, nem a ruminar minutos em estações citadinas. Nesse dia lembrei-me do tempo perdido que tinha para resgatar.