segunda-feira, junho 25, 2007

Solidão


Trazia na mala, junto da maquilhagem, uma dúzia de desejos e caprichos, que lancei na folia de uma madrugada sonâmbula, balões coloridos cruzando a noite incapaz de adormecer. Dei sorrisos de graça com uma brandura festiva, apertei mãos, carpi sonhos estilhaçados e vi clarear uma nova oportunidade de ser feliz. Mas já não pude, na minha ignorância desperta, assistir ao fogo do telhado, bramindo vivas à cidade, sem pensar em ti. Onde estarias, na devassidão da multidão enrugando o granito das escadas que te consolam a memória dos afectos? Em que pensarias, no intervalo infinito das contrações do teu coração? Que música louvaria as pétalas mortas da tua solidão?
Nunca antes, mimo triste, te vira realmente. Naquele dia, enquanto as pálpebras te descaíam a mais profunda lamúria, o sorriso ficou-te pendurado no canto dos lábios. Quando me viste olhar-te, a boca arredondada de espanto, a tua mão abriu-se devagar e a marioneta caiu sem barulho no chão frio. Depois só um espasmo aflito e o teu vulto arrefecendo no meu retrovisor. Matei-te a tristeza indecente, esborratando-me o pulsar estrelado, mas o teu olhar enevoado perseguiu-me pelas ruas entorpecidas como que para me lembrar que a noite tem outro rosto.
Foram marchas e flores ao bom sabor da euforia popular e pessoas por todo o lado, galgando as horas que teimavam em não passar. Risos, namoricos, o elogio fácil e o provérbio a espreitar de uns lábios distraídos. Foram sonhos partilhados, no conforto de um encontro anónimo. Mas de manhã, quando o silêncio inundou as ruas desertas, a cidade foi de novo só tua. É ela a única que te conhece, para lá da máscara e do gesto desfeito, amante saudosa enlaçando-te nos braços vazios.
[No brilho vago do teu olhar, ia jurar que vi surgir, insurrecto, um sorriso.]
Pontapearás as latas vazias, vestígios descarados da alegria alheia, e guardarás o fato. Sem que nunca to tenham dito, sabes como se tivesses vivido mil vidas, toda a festa é efémera. Real é a conjugação de átomos que te agita as células num vívido estar em si e isso, esse deambular vagabundo da carne insatisfeita, é um ponto cardeal igual a qualquer outro debaixo do sol.
Hoje o dia é teu.
Resolverei o mais brevemente possível os problemas técnicos de formatação para devolver às palavras o silêncio e os suspiros e ao leitor o prazer dos espaços vazios. As minhas desculpas. Sam

8 comentários:

viking disse...

Pudesse o "mimo triste" conhecer o grande coração que o teu peito alberga...
És um doce!

reinaldo correia disse...

Agora tornaste-te amiga dos "velhos"? A última vez que te ouvi falar no assunto dizias algo como "já ouviste um velho a falar por 15 minutos??? São tão chatos!". Olha lá a coerência. De qualquer modo, a foto é óptima.

happiness...moreorless disse...

que texto!! Parabens, está mesmo muito bom!

*******

S. disse...

viking,

pudesse eu olhá-lo nos olhos mais uma vez, despido da posse e da maquilhagem, e contar-lhe [sem que uma palavra cortasse o tempo suspenso entre nós] tudo o que ele me ensinou.

reinaldo correia,

não me lembro, caro amigo, de ter algum dia tido semelhante conversa contigo. Não me interpretes mal, mas as palavras nunca foram abundantes entre nós. Ainda assim, não procuro ser coerente, eu sou mesmo assim, desencontrada. Nem vejo que faça algum sentido ser diferente perante um comentário descontextualizado que não reconheço e com o qual não me identifico. Esta é a minha verdade. A fotografia é do magnífico site www.olhares.aeiou.pt. Obrigada pela visita, volta sempre.

happiness...moreorless,

obrigada pelo sorriso que sempre me trazes =)

Luís disse...

Espaços vazios...

Gosto de te ler de qualquer jeito, mas sinceramente senti falta de mais um pouco de vazio.

Espero q estejas bem...

as-the-dust-seats disse...

a foto esta chocantemente encantadora.
e as palavras? um futuro q nao me atrevo a caracterizar ;) *

marta disse...

És brilhante!!!

O texto é apenas mais um... FANTÁSTICO!!!
A foto é linda!
Parabéns pela solidão descrita, entre uma multidão ignorante e intrometida em festa, desrespeitando a “casa” alheia...

beijinhos

S. disse...

luís,

prometo fazer o que estiver ao meu alcance para subjugar os caprichos das novas tecnologias. Efectivamente, os silêncios são tão poderosos e necessários como as palavras.

as-the-dust-seats,

talvez uma realidade [suspiro].

marta,

se soubesses como é bom ter-te de volta...

O meu obrigada a transbordar de carinho a todos vocês, que vão pousando o vosso olhar, numa oferta generosa de um pouco do vosso tempo ao "On my own" =)