
Trazia na mala, junto da maquilhagem, uma dúzia de desejos e caprichos, que lancei na folia de uma madrugada sonâmbula, balões coloridos cruzando a noite incapaz de adormecer. Dei sorrisos de graça com uma brandura festiva, apertei mãos, carpi sonhos estilhaçados e vi clarear uma nova oportunidade de ser feliz. Mas já não pude, na minha ignorância desperta, assistir ao fogo do telhado, bramindo vivas à cidade, sem pensar em ti. Onde estarias, na devassidão da multidão enrugando o granito das escadas que te consolam a memória dos afectos? Em que pensarias, no intervalo infinito das contrações do teu coração? Que música louvaria as pétalas mortas da tua solidão?
Nunca antes, mimo triste, te vira realmente. Naquele dia, enquanto as pálpebras te descaíam a mais profunda lamúria, o sorriso ficou-te pendurado no canto dos lábios. Quando me viste olhar-te, a boca arredondada de espanto, a tua mão abriu-se devagar e a marioneta caiu sem barulho no chão frio. Depois só um espasmo aflito e o teu vulto arrefecendo no meu retrovisor. Matei-te a tristeza indecente, esborratando-me o pulsar estrelado, mas o teu olhar enevoado perseguiu-me pelas ruas entorpecidas como que para me lembrar que a noite tem outro rosto.
Foram marchas e flores ao bom sabor da euforia popular e pessoas por todo o lado, galgando as horas que teimavam em não passar. Risos, namoricos, o elogio fácil e o provérbio a espreitar de uns lábios distraídos. Foram sonhos partilhados, no conforto de um encontro anónimo. Mas de manhã, quando o silêncio inundou as ruas desertas, a cidade foi de novo só tua. É ela a única que te conhece, para lá da máscara e do gesto desfeito, amante saudosa enlaçando-te nos braços vazios.
[No brilho vago do teu olhar, ia jurar que vi surgir, insurrecto, um sorriso.]
Pontapearás as latas vazias, vestígios descarados da alegria alheia, e guardarás o fato. Sem que nunca to tenham dito, sabes como se tivesses vivido mil vidas, toda a festa é efémera. Real é a conjugação de átomos que te agita as células num vívido estar em si e isso, esse deambular vagabundo da carne insatisfeita, é um ponto cardeal igual a qualquer outro debaixo do sol.
Hoje o dia é teu.
Resolverei o mais brevemente possível os problemas técnicos de formatação para devolver às palavras o silêncio e os suspiros e ao leitor o prazer dos espaços vazios. As minhas desculpas. Sam