quinta-feira, junho 28, 2007

Em breve...




Um novo espaço.

segunda-feira, junho 25, 2007

Solidão


Trazia na mala, junto da maquilhagem, uma dúzia de desejos e caprichos, que lancei na folia de uma madrugada sonâmbula, balões coloridos cruzando a noite incapaz de adormecer. Dei sorrisos de graça com uma brandura festiva, apertei mãos, carpi sonhos estilhaçados e vi clarear uma nova oportunidade de ser feliz. Mas já não pude, na minha ignorância desperta, assistir ao fogo do telhado, bramindo vivas à cidade, sem pensar em ti. Onde estarias, na devassidão da multidão enrugando o granito das escadas que te consolam a memória dos afectos? Em que pensarias, no intervalo infinito das contrações do teu coração? Que música louvaria as pétalas mortas da tua solidão?
Nunca antes, mimo triste, te vira realmente. Naquele dia, enquanto as pálpebras te descaíam a mais profunda lamúria, o sorriso ficou-te pendurado no canto dos lábios. Quando me viste olhar-te, a boca arredondada de espanto, a tua mão abriu-se devagar e a marioneta caiu sem barulho no chão frio. Depois só um espasmo aflito e o teu vulto arrefecendo no meu retrovisor. Matei-te a tristeza indecente, esborratando-me o pulsar estrelado, mas o teu olhar enevoado perseguiu-me pelas ruas entorpecidas como que para me lembrar que a noite tem outro rosto.
Foram marchas e flores ao bom sabor da euforia popular e pessoas por todo o lado, galgando as horas que teimavam em não passar. Risos, namoricos, o elogio fácil e o provérbio a espreitar de uns lábios distraídos. Foram sonhos partilhados, no conforto de um encontro anónimo. Mas de manhã, quando o silêncio inundou as ruas desertas, a cidade foi de novo só tua. É ela a única que te conhece, para lá da máscara e do gesto desfeito, amante saudosa enlaçando-te nos braços vazios.
[No brilho vago do teu olhar, ia jurar que vi surgir, insurrecto, um sorriso.]
Pontapearás as latas vazias, vestígios descarados da alegria alheia, e guardarás o fato. Sem que nunca to tenham dito, sabes como se tivesses vivido mil vidas, toda a festa é efémera. Real é a conjugação de átomos que te agita as células num vívido estar em si e isso, esse deambular vagabundo da carne insatisfeita, é um ponto cardeal igual a qualquer outro debaixo do sol.
Hoje o dia é teu.
Resolverei o mais brevemente possível os problemas técnicos de formatação para devolver às palavras o silêncio e os suspiros e ao leitor o prazer dos espaços vazios. As minhas desculpas. Sam

quarta-feira, junho 13, 2007

Nunca te esqueças...

Não distingo ao certo o momento, que pensamento dissecava no vago processo de queimar quilómetros, mas ia jurar que acertei na escala, meio tom acima da última vez que a trauteei no banco de trás do teu carro. Hoje eram os meus dedos a tamborilar no volante, tecendo o ritmo dos versos. Quando a música parou, não soltei a gargalhada do costume. Será que ainda te lembras do que vem a seguir?

Ainda vejo o velho brilho no teu olhar gasto de histórias e o sorriso descaído não falseia as notas vibrantes da tua voz. Como eu queria que erguesses esses ombros vergados pelo peso do cansaço e, libertando o presente amarrotado, me provasses que, para os sonhadores, há mais do que uma seca e encarquilhada desilusão. Peço-te que me desmontes a realidade depurada e, pela primeira vez, me fales de um rio que no fim encontra o mar.

Lembrei-me de ti a sépia, como se quer das recordações felizes. Houve tempo para os batidos de gomas, para as excursões ao carro das cobras, quando as árvores ainda não tinham cedido à sede do consumo e eu me permitia fantasiar. Era tudo grande no nosso mundo, do tamanho que a imaginação nos concedia. Insurgimo-nos contra os finais felizes, desmoronámos castelos de cartas e escolhemos um naipe mesmo à nossa medida. Hoje tu ganhaste tudo a ases e eu tenho a minha sequência traçada, mas já não me sentas no teu colo, aborrecendo-me numa terna letargia, enquanto me falas com simplicidade sobre a vida. Do manual de sobrevivência que me escreveste, comprovei cada teoria à custa de esfolar os meus próprios joelhos. Sabias que o faria, que te imitaria. Mas nem nos mais loucos desvarios admitiste que um dia fossemos realmente tudo aquilo que sonhámos para nós.

Posso descrever-te esperando-me, ardendo cigarros na impaciência de não me ver chegar. Ainda guardas o meu quarto junto às estrelas? Nos projectos audazes que ias comentando com entusiasmo, isso bastar-nos-ia. Uma casa envidraçada, uma tela vazia debruçada sobre um cavalete e alguns acordes de jazz acariciando o silêncio esponjoso e imperturbável da serra. Herdei essa maneira minimalista de desejar e a tua própria indiferença a uma qualquer categorização. Sempre te conheci as mãos abertas, agradecidas para com o que a vida pousa, abstinentes na ânsia de agarrar o que quer partir. E só agora, que a poeira já emperrou os laços, vejo os punhados de solidão crispados nas rugas que te documentaram o passar dos anos.

Não me esperes para te ir resgatar do tédio dos sonhos consumados, estou com pressa de desatar os meus. Na tua mão só pegarei quando escolheres redefinir a tristeza. Então, desenharemos juntos um novo mapa do tesouro, mas desta vez teremos o cuidado de o deixar onde alguém o possa encontrar.

Só nunca te esqueças de me falar de amor…