quinta-feira, março 01, 2007

Saudosismo

Não te vi no deslumbre de uma bebedeira de cores e sons, não tinhas o glamour, nem a juventude, nem o teu céu prometia mergulhos de azul. Tinhas a sobriedade de uma velha anfitriã, a nudez rude que não fascina, nem incomoda. Recebeste-me com os teus olhos cinzentos impávidos e, no teu seio, passeei impunemente sem que uma única gaivota viesse anunciar a Primavera. Não houve violinos uivando lamentos nas ruas, nem estrelas na tua noite cerrada. Não houve quem se detivesse, quem olhasse, quem a minha passagem tocasse no seu suave restolhar. Só a cauda do teu vestido antiquado roçando-me as paredes do encantamento. Não lhe chamaria paixão.

Recosto-me e fico a olhar-te daqui, de onde ninguém nos vê. Percorro-te a pele enrugada nas fotografias, os sorrisos que a objectiva prendeu eternamente a um momento. Quase te sinto a mão gelada descendo-me pelo rosto, o raio tímido espreitando no canto dos teus lábios. É possível ter-me deixado inebriar? Já vi tantas como tu e tão mais exuberantes. Talvez tenha sido essa tua despretensão, tocando a indiferença, que primeiro me intrigou. A tua magia está para além do óbvio, da austeridade dos teus edifícios, dos traços fechados das tuas gentes. Porque ninguém sabe que, por trás das tuas fachadas, há pequenos reinos de faz de conta. Ninguém sabe que, quando as nuvens se abrem no teu rosto, tens sol ardendo-te nos cabelos. Ninguém sabe. Esse é um segredo que partilhaste só comigo.
Quando me voltar a apaixonar, prometo lembrar-me das noites boémias em ti. Das conversas de café, do homem que rasgava a alma no papel mesmo ao lado, das mãos cruzando a mesa em voos de infinito. Vou ver-te sempre vagueando por entre estantes transbordando livros, cada um com o seu perfume, a sua história, o seu pedaço de sonhos e de pecados. Vou saber dizer todos os nomes que tiveste e guardar o sabor que todos eles deixaram na minha boca. Permite-me que te use, que corra para os teus braços e respire longamente o teu travo a mundo novo. Até me saciar de sonho tornado realidade. Para que não se dissipe em mim a memória do teu olhar entrecortado pelas gotas de nevoeiro. Por isso, te escrevo, desenhando as linhas do teu corpo, para me perder quando precisar de me encontrar e saber-te real, algures nesse mundo, longe de mim.
Ficamos para sempre ligados aos lugares onde fomos felizes.

Obrigada Budapeste.

15 comentários:

viking disse...

Quem diria que a "cauda de um vestido antiquado" poderia esconder tanta modernidade e que "o travo a mundo novo" é tão só o gosto do lado positivo do progresso... como continua "pequenino" este nosso país que era suposto ser um "jardim à beira mar plantado!!!
Mais um texto maravilhoso, vibrante...que bom que partilhas conosco estas "delícias"!

Pedro Oliveira disse...

ahhhh Budapeste Budapeste...quantas saudades...o meu Reino por mais uma semana em Budapeste...CONTIGO!!...
Foi dos melhores dias da minha vida e passados então contigo foi mais do que a cereja no topo do bolo...passamos momentos tão bons...sempre juntinhos...so de pensar que n me ia separar de ti durante 5 dias..que iamos estar sempre os dois de manhã ate à noite foi delicioso...foi a realização de um sonho..o completar de uma aspiração...as saudades sõ por vezes insuportáveis desses dias...o regresso foi triste e bastante cedo..."why do all good things come to an end?"..Mas como me disseste um dia..é no Porto que nos estámos e é no Porto que é real...real o nosso amor...o que pensamos um do outro e o que fazemos um pelo outro...o que nos contruímos ate agora é algo que as palavras n podem explicar nem descrever...traduzimo-lo por gestos e feitios...e todo o mundo ve a nossa felicidade espelhada nos nossos olhos e nas nossas mãos...sempre envolvidas uma na outra e irremediavelmente fixas e entrelaçadas...como os nossos corações :-)...
O texto esse está igual a si próprio...metaforicamente brilhante...a simbiose que construiste esta excelente...a imagem esta ternamente trabalhada..vê-se que foi feito do fundo do coração...o que me deixa imensamente feliz...

Amo-te Imenso

Cusco disse...

Há um ditado, ou uma frase célebre que diz que nunca devemos voltar aos lugares onde fomos felizes..Até há pouco não entendia a lógica mas agora entendo.
O teu texto fez-me lembrar isto e devo dizer-to que está muito bem escrito. Parabéns!
bjs bom-fim-semana e
até breve
SE DEUS QUISER

Joao disse...

Ficamos para sempre ligados à arte e ao coração das tuas palavras ... :)

Té § [Pi]menta =) disse...

texto mais q perfeito! :) amor bonito o teu :) bjinho***

Marta disse...

Mais um texto encantador, brilhante!
Sem palavras...
bj

Pecado original disse...

O Malato sublinharia por baixo, eu assino em todos os lugares.
Existe sempre um alma rebelde que se encontra em todos os palcos onde vivemos. Essa alma, ser e perdição que dá inspiração para se escrever assim...

uma boa semana

alguem disse...

Bonito texto parabéns.
Beijo ** :)

Marie disse...

Lindíssimo!
Aqui está um TALENTO.
Usa-o. Sempre!
:)

x disse...

escreves, realmente, bem. não o digo muitas vezes porque gosto mais de te dar caderninhos à socapa, de to dizer tácitamente. sabes o que é budapeste para mim, mas isto é que é para ti e sabe bem ler. não escrever nada sobre isso. sentir que percebeste toda a magia que me encantou.

soggyscheme disse...

bonito amor.. simples e puro e único apensas teu.

=)

delilah disse...

Confesso que nao foi das cidades que mais forte bateu aqui, mas depois de tamanhas palavras quase jurava ser a minha cidade favorita. De um brilho tão intenso, de uma magia tão peculiar, de um sentir tão verdadeiro que quase sinto o meu miocardio a disparar na direcção de qualquer coisa assim.
Tambem quero budapeste pra mim ... tambem tenho suadades .. tenho .. x')*

filipelamas disse...

Quem escreve assim está votada ao sucesso. Não aquele passageiro e que deixa um travo amargo, mas aquele que é doce e sabe a canela.
Parabéns!

filipelamas disse...

Sinceros parabéns pela pouco vulgar qualidade do blog!

somelight disse...

E com um suspiro te deixo...