quarta-feira, setembro 13, 2006

Quatro minutos

Fotografia em www.pages.globetrotter.net/banmona/images/yoga


Hoje aprendi que os mantras da yoga são muito mais do que gestos graciosos que, reflectidos no espelho, enchem o nosso ego de orgulho, mais do que cada gota de suor a lembrar-nos que seremos mais magros, mais elegantes, mais atraentes... Hoje aprendi que os limites do nosso corpo são muito mais acessíveis do que os da mente. Pensamos que somos fortes de cada vez que resistimos às tentações da preguiça, de um doce, mas afinal estamos só a obedecer às pressões da sociedade, marionetas agindo na doce ilusão de viver. À alma, essa que permanece muda e cega perante os holofotes do mundo, não temos acesso. Brilhamos pelo sorriso radiante, pelo olhar magnético, pelas roupas da moda... Mas quantas vezes conseguimos atrair uma atenção genuína por aquilo que temos para dizer, que podemos ensinar?
A yoga, não aquela praticada nos ginásios de luxo ao ritmo dos últimos sucessos do hip hop, a verdadeira yoga, despretensiosa, despojada de colchões topo de gama e luzes que disfarçam as estrias, a yoga pura e dura, dos silêncios intermináveis, dos gestos que importam pelo que são e não pelo que parecem... Essa yoga ensina-nos a persistência de procurar chegar ao fundo de nós mesmos, ao âmago das correntes que nos amordaçam, à origem dos nossos medos, àquilo que efectivamente somos. Assim, sem mais ornamentos.
Quatro minutos... Foram só quatro minutos... Que me pareceram uma eternidade. Só porque nesta sociedade não se ensina ninguém a estar sozinho consigo mesmo. Digo sozinho, não só. Não importa quantas pessoas estavam à minha volta, não havia música, nem televisões, nem computadores ou quaisquer outros gadgets para me distrair... Não havia sequer uma pessoa a passar, uma rua para observar, um semáforo a piscar que me prendesse a atenção. De olhos fechados, estava finalmente diante de mim mesma, enclausurada num momento que sempre evitei. Não levitei, não foi prazer o que senti. Primeiro ruído, um ruído ensurdecedor. Depois toda uma gama de pensamentos disparatados, libertadores, como se todo o “lixo” que venho acumulando no baú escuro do meu cérebro tivesse encontrado uma saída. Ultrapassei o medo do desconhecido, do silêncio e da escuridão que pensava conhecer. De repente, já não sentia o meu corpo, tudo se passava a um nível que conscientemente não dominava, simplesmente assistia ao desenrolar dos meus diálogos calados, apalpando os terrenos novos do meu ser, chegando a planícies desconhecidas de verdades que nunca antes se haviam revelado perante os meus olhos demasiado presos às cores do mundo. Quatro minutos. E tudo era novo neste sítio onde tinha chegado. Tudo o que eu tinha aprendido sobre reflexão, pairando vestida de branco diante de uma janela banhada de luz, havia-se quebrado naquele momento, mas valia tão mais saber agora o gosto sincero das minhas entranhas, sentir-lhe o sabor a sangue e a lágrimas, a risos e suspiros...
Como em tudo na vida, o caminho está cheio de pedras e dói, descer o abismo profundo, olhar o silêncio nos olhos e, com um suspiro profundo de satisfação, deixarmo-nos afundar nos pensamentos que, suavemente, nos deslizam pela mente finalmente vazia das impurezas de um mundo que não sabe quem somos.

Quatro minutos... E tu, sabes quem és?

2 comentários:

Pecado Original disse...

Multiplica estes quatro minutos.

Só quem sabe estar consigo mesma sabe o que são 4 minutos no tempo.

***

Raul disse...

O brilho do teu sorriso radiante e o teu olhar magnético são o reflexo da linda pessoa que está por trás dessas qualidades fisicas que poucos conseguem querem descobrir!

Sou teu amigo pela tua atração genuína, por aquilo que tens para dizer e pelo que me podes ensinar :)

Beijinho e Abraço,

Raul