
Quando a janela se fecha
E se transforma num ovo
E se desfazem estilhaços
De céu azul e magenta
O meu olhar tem razões
Que a razão não frequenta
Por favor diz-me quem és tu de novo
Quando o teu cheiro me leva
Às esquinas do vislumbre
E toda a verdade em ti
É coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar
Que a tua presença me arrasta...
Quem és tu na imensidão do deslumbre?
As redes são passageiras
Arquitecturas da fuga
De toda a água que corre
De todo o vento que passa
E quando uma teia se rasga
Ergo à lua a minha taça
E vejo nascer no espelho
Mais uma rua
Quando o tecto se escancara
E se confunde com a lua
A apontar-me o caminho
Melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar
Que foste sempre a mais bela
Por favor diz-me que és alguém de novo...
Jorge Palma
“Quem és” é uma pergunta tão indiscreta quanto traiçoeira e... Será que algum dia me poderás responder? Talvez eu não queira uma resposta. Tu és aquilo que eu vou descobrindo, no intervalo dos risos, aos tropeções, umas vezes confiante, outras insegura... Tu és o que eu vejo em ti, como o reflexo de um lago sem fundo, uma prenda que se desembrulha devagar, saboreando o prazer antecipado da expectativa. Todos nós já nos desiludimos, todos acreditámos naquilo que julgámos ser um céu e no final de contas eram só estilhaços azuis e magenta... Todos guardamos a verdade secreta numa concha esquecida por entre as algas das memórias e todos desejamos a corrente que venha despojar-nos dos corpos mortos, que nos liberte a essência e nos aponte o caminho melhor do que qualquer estrela. Nenhum de nós sabe quem é. Por isso, não respondas. Deixa que o tempo, como o mar, traga para terra os despojos de ti. Eu não vou procurar desenterrar as tuas lendas, nem mergulhar em águas que se podem revoltar... Estou cansada de naufrágios. Não roubo a tua história, aceito os vislumbres que dela me dás e vou construindo uma ideia de ti, com prudência, com a segurança de seres autenticamente tu, porque, se um dia deixar de haver a tua presença, não quero encontrá-la despida de alma. Dou-te a garantia de que vou ver em ti alguém de novo e de mim... aquilo que estiveres disposto a abraçar, a desvendar com a mestria cautelosa de quem descobriu a importância de esperar. Porque nos reinventamos cada dia e somos sempre alguém de novo, é perda de tempo tentarmos prender-nos num perfil, numa imagem, numa definição que nos torna escravos de alguma verdade que não pedimos para integrar. Eu não sei quem és, quem sou... Sei que quero procurar. Não é que isso que verdadeiramente importa?