quinta-feira, abril 26, 2007

Curta metragem

Voltaram os olhares empoeirados, os casacos, toda a ridícula panóplia de dias cinzentos. [Os lábios em câmara lenta, remoendo palavras mortiças, inchando suspiros pardacentos.] O que oiço é tão pouco quanto o silêncio fantasmagórico da fita a rodar e, no canto, o protagonismo apagado dos teus dedos mordiscando o papel amarrotado. [Não vou fugir da chuva, não há como…] Faz parte do cenário.

Tenho os átomos exasperados de uma febre desconhecida que me vai sangrando as glândulas. Arranho-te a insanidade num sorriso bem apertado, até o espartilho da polidez te verter o argumento. O meu papel é simples, cruzo a rua ao lado, o guarda-chuva rebelando-se aos caprichos do vento. Tudo a preto e branco. [Já oiço a calçada gasta dedilhando os meus passos.] Provavelmente, ninguém vai reparar.

Meio segundo depois, longe dos grandes planos do teu olhar ensaiado, o café da esquina vai parecer-me convenientemente consolador. Sentar-me-ei. Vou pedir um chá a fumegar e observar os grafittis que desfiguram as paredes da cidade. [O mais certo é concluir que a amo assim, negligentemente abandonada às unhas que lhe desgarram as horas mortas, cicatrizes que vão lembrando que, por ali, alguém viveu.] Guardo-lhe as saudades, pago a conta e saio de cena. Tenho a certeza que o mendigo, gentilmente, cantará Tom Waits, arrastando as notas embriagadas da minha melancolia. Hei-de lembrar-me de não passar por perto, baixarei o volume das emoções, como manda o figurino. [Será tudo como antigamente, os ecos vagos da casa vazia, a fotografia tosca a trair a textura granulada dos teus poros matizando o ecrã.] Não vou deixar as portas baterem. Perdi a deixa do desespero, não vi as sombras focarem a premonição que calcorreava um trágico final feliz. [Afinal, é o que se espera.] Esta é história de passar em horário nobre. Desapaixonadamente, tudo o que resta será politicamente correcto.

[Adeus...]

segunda-feira, abril 16, 2007

Auto-flagelação





















Mastiguei o horror da morte numa ceia oportuna
[Sempre ajuda a engolir melhor as lágrimas]
Como um vício antigo e pardacento
Que me dá às faces aquele ar descolorido e lamacento
Um pouco trágico até,
[É de bom tom ser um pouco soturna]
Preguei um previsível romantismo
Comentei desastres ambientais e genocídios
E, à noite, prenha de um estimado egoísmo
Fiz as teclas gemerem desabafos diletantes e paixões burguesas
Foi essa a história que eu escrevi.

Esperei na berma pelos ecos da chacina
Aguentei, firme, enquanto me retumbavam nos ouvidos
E cataloguei-me “sensível”
[Mas nunca deixei de fechar as persianas]
Perdi a conta das vezes que acordei
Encharcada em vómitos de silêncio
E me levantei, com as penas mutiladas,
Para viver uma vida normal.

[A compaixão é um caminho fácil]
Reza-se uns terços e compra-se a paz da alma
Afinal, ainda que os cristais retinam uma realidade deslocada
Quer-se do vinho que seja depurado de sangue
Sentamos a dor à mesa e, com uma pitada de sal,
Vamos-lhe deglutindo o remorso
Até que a verdade seja tão ténue
Que se perigosamente aproxime da ficção.

A conclusão?
Nunca fui diferente.
Não desprendi as membranas da acomodação
Fiquei-me pelas desculpas vagas
Pelas intenções que nunca jurei cumprir
Carpi as dores alheias em frente à televisão
E fiz disso um último resquício de humanidade
Sei agora que todo este tempo estive conivente
Declaro-me culpada de uma inércia pungente
E cumpro pena de auto-flagelação.


quinta-feira, abril 12, 2007

Pecados íntimos


Dizem dela que matou o próprio filho. Que o arrancou à unhada do ventre inchado, que o embalou, moribundo, até o pequeno corpo arrefecer e os olhos entreabertos se lhe turvarem, num derradeiro esforço de vida. Dizem que a criança estava deformada, o peito minúsculo profanado por uma meticulosa facada. Encontraram-no embebido no seu sangue, sufocado por um ódio que não fez por merecer. Dizem que, durante todos aqueles anos, ela não chorou. Ninguém suspeitou.

Estilhaço-lhe o olhar azul, mais brilhante no ecrã, atolo-me de nódoas ressequidas, de culpas que não sararam, medos que um crime hediondo não matou, mas a única coisa que descubro é que o olhar dela é igual a qualquer olhar. À medida que lhe palmilho a face provocadoramente jovem, os cabelos luminosos, os lábios trémulos vou ouvindo as contracções do silêncio sepulcral que o passado lhe enterrou nas têmporas. Penso na ironia da natureza, irrigando na beleza voluptuosa que cuspiu o seu corpo impúbere toda a sórdida fealdade do ser humano. Que importa se ela tinha 15 anos, se a gravidez não era desejada? Chamo-lhes circunstancialismos, contornáveis decerto, não fossem os sonhos. Esses sim, os sonhos são os homicidas com a cabeça a prémio. Um caminho previamente delineado, uma rota rasgada com persistência na pedra incólume que lhe era a promessa imperdoável de um futuro de portas escancaradas. Um passo mais à frente e as linhas que lhe romperam a sanidade teriam atado outro destino. Mas a bússola das expectativas deu-lhe a direcção errada, as coordenadas invertidas trocaram-lhe os céus e, quando deu por si, tinha bichos marinhos a colarem-lhe mágoas viscosas aos tornozelos. Da índole, nunca lhe saberemos a cor. A história está repisada e os contornos enlameados têm o odor acre e quase imperceptível das mãos de um advogado ardiloso. Expedientes de uma justiça tardia. Que importa?

Depois dela, vejo claramente. Os olhos não espelham a alma. Os anjos não têm que ser bonitos. O mundo não é um filme de cowboys e os papéis não estão, à partida, claramente definidos. Cada pessoa é, em todos os momentos, as suas escolhas.

Quantas pessoas já apunhalaste? Quantos valores abortaste? Quantos erros escondeste no canto mais escuro do armário? Se olhar dentro dos teus olhos, se os fixar no ponto exacto em que se torna insuportável o contacto, se eu te trespassar até a alma queimar, vais contar-me os teus fantasmas? Todos temos pecados íntimos, corpos a apodrecer, sacos no lodo que nunca viram a margem, seladas e inquebráveis caixas de pandora, todos.

Quão turvo é o teu rio?

segunda-feira, abril 09, 2007

Promessas vãs



Se não te importares, vou quebrar todas as regras. Quando não estiveres a olhar, vou dizer que te adoro, desenrolar a história que não nos pertence numa narrativa desapaixonada [que interessa se o teu longe esteve sempre tão perto?], passar o dedo sobre as cartas e sentir a textura dos momentos que descuidadamente esqueceste nelas. Vou certificar-me que nenhum centímetro do teu rosto escapa, impune, ao meu beijo mimado. E não vou pedir desculpa.

Não é que eu sinta saudades [eu não preciso de ti]. O lapso de tempo que o nosso orgulho consumiu ensinou-me que não és insubstituível. Nem tu, nem o teu mundo que, imprudentemente, entoa a minha poesia. Sei que um dia [qualquer dia] uma de nós bate a porta, sem complacência pelo horizonte que não sonhamos em conjunto. Conheço-te os juízos implacáveis, respeito-te a personalidade de ferro impecavelmente adornada de rendas e puro algodão.

[Mas hoje um sorriso veio acordar-me os solfejos da tua voz.]

Saboreio a imperfeição dos nossos ritos tribais. Não deixes nunca que a adoce, chama-me traidora e grita comigo. Os passos que rasguei à areia fria, a lenha que não nos aquecia, a passividade imperturbável da cidade, tudo isso são segredos. Inconfessáveis, como juras de uma ordem milenar. Prometo calar os suspiros quando o seu murmúrio sonolento me vier despertar, dizendo, em tom cúmplice, que me sabe o sorriso no escuro. Prometo não falar dos abraços coreografados, dos arrufos ensaiados, da tua censura implícita numa insubmissa lealdade. Não vou partilhar as insónias em frente à lareira, a música irrompendo pelo silêncio esponjoso da noite rural que galgámos, o desgaste dos risos. E, quando me perguntarem o que vi em ti, vou usar de um lugar comum e nunca vou admitir que o teu jeito felino me fascina. Não duvides, eu vou remeter o meu silêncio para todos artigos do princípio de independência que nos é tão caro [riscar os diálogos insólitos, as coincidências de novela vulgar, os videoclips dos anos 80, passar corrector e reescrever um insalubre “foi uma boa semana"]. Mas, na minha deixa, vou desenhar-te um coração no papel a saber a velho, e, enquanto rabisco uma patética declaração em inglês, lançar-te um olhar e dobrar a esquina do teu caderno.

Depois deixo-te sozinha com o teu mundo de palavras vívidas, dando corda às fantasias de Virgínia Woolf, reinventando a melancolia.

[Eu prometo.]

segunda-feira, abril 02, 2007

Poema em branco


Estranho-me, no estremecimento lânguido e inoportuno de uma adolescência tardia. Se amanheço, o sol tímido que me vai escapando pelos lábios entreabertos cola-me arrepios de orvalho fresco à pele. Os mergulhos nos teus olhos não me curam a ânsia, não me calam o desejo. Na febre das vogais, esqueci-me da pontuação. É uma espécie de insanidade.

[Tudo o que eu quero é verbalizar.
Desculpa se te uso como pretexto.]

Puxo o fio das recordações, com cuidado, não se vão desfazer os nós. O galgar das emoções ensurdece-me, mas, detrás do biombo, só as vejo pelo canto do olho. Espalho-as no pátio, longe das lágrimas, para que não me incendeie a saudade. Vasculho pessoas, disseco lugares, construo o puzzle dos momentos, mas fica sempre a faltar uma peça do que sou.

[Se não for demais, lembra-me de nós.]

Sento-me, a enlouquecer o tiquetaquear das perguntas. Presto contas ao relógio das respostas que não te dei. Já houve tempos em que a gula das conversas ajudava à digestão dos pecados. Nesses dias, tu declamavas sorrisos com uma solenidade despropositada e eu via nos soluços da ternura uma inócua poesia. Hoje os versos são incompletos, os sentimentos já não rimam. Deveria haver quem me dissesse que é feio mudar de opinião.

[A métrica está desencontrada, a sonoridade vai em contramão.]

Talvez eu fuja. Assim não temos que lhe dar um final. Visto o meu melhor sorriso e saio. Talvez eu finja. Aperte a mão aos fantasmas, fumando frustrações com um ar displicente. [Vou rasgando folhas sem pressa, ainda está tudo em branco.] Talvez me ria. E te acene, ignorando o teu olhar insolente. À força de guardar vidros e conchas que rasgaram a carne, aprendi a emparelhar pulsações obstinadas. Posso esconder-me nelas e praticar uma maturidade desajeitada. [Espalho a tinta, num momento de sórdida lucidez.] Não contes as sílabas, numerei as palavras do avesso. Amanhã as conjugações serão outras.


Não está tempo para poesias.

domingo, março 25, 2007

Leviatã

















Não olhes para trás
Enquanto desces a avenida
Dobra a língua
Amarra as lágrimas
Segura o passo que vacila
Representa o teu próprio sorriso
Os dramas épicos estão fora de moda.

Não deixes que eu te sinta
O sangue derramado
O olhar pálido
A palavra incolor
Bate a porta
Sem violência ou rancor
Deixa-me no quarto sozinha
Com a placidez das horas consumadas
Ouvindo-te o silêncio dos passos
Afastando-te de quem fui.

Joga o meu jogo
Entrega as copas
Juro-te que essa tua complacência
É o teu maior trunfo
Não tarda o Leviatã em mim
Se cansará de truques e de espadas
E aí, ainda que com a mão cheia de duques,
A última jogada será tua.

quinta-feira, março 22, 2007

Have I told you lately that I love you?



Falo muito e disparato. Comento o tempo e, pelo caminho, passo em revista a notícia do jornal das oito e a vida da outra. Falo para queimar horas, para encurtar distâncias, para sentir que dou uma parte do que sou. Um vasto leque de futilidades, ao bom sabor de uma risada despreocupada. Porque a vida já é sisuda o suficiente. Algumas vezes, pequenos tesouros. Pensamentos comuns, sensaborões, desabafos que se esperam, pedaços de mim servidos gulosamente com chantilli. Se mudo de ideias, é porque não gosto do tédio. O que eu gosto é de desafinar, de tocar ao contrário. Sou coerente com a minha desarmonia e deixo-me ir, volátil, nessa ilusão de eternidade que partilho.
Só tu és, na promiscuidade das palavras entrelaçadas, o meu último recanto de intimidade. Guardo-te para mim, como um segredo. Não te digo e, a olho nu, parece que nem te sinto. É tamanho o turbilhão do palavrear que me escorre dos lábios, que parece que és uma gota, uma tão pequena gota, negligenciada pelas outras na minha gula de cuspir o mundo. Perdoa-me se te omito, se nem te sei ao certo o sabor. Nunca te disse em palavras. Porque há sentimentos perante os quais elas pouco podem e envergonham-se e nem sequer chegam a acontecer. (não há braços que enlacem o universo inteiro em ti) E a tua presença? É etérea, como um pestanejar, como um manto de estrelas arrepiando-me a pele ao amanhecer. Fecho os olhos e provo-te a doçura, sei-a de côr. Mas não lhe encontrei o nome. Por isso, deixo somente que sejas em mim. Porque tu és sangue, correndo-me nas veias, misturada com o que sou. Desde o primeiro segundo, de tal forma indelével e indistinto que, sem ele, de pouco me valia o nome, um rosto e uma história. Porque este amor que sinto é a minha identidade, o fluxo de vida que agita cada célula do meu corpo. É a primeira imagem (e ainda vejo o teu sorriso), a primeira vez que saboreei o mundo e o vi, pelos teus olhos. Não houve, até hoje, imagem mais bonita. Não há, não houve, não haverá. Ninguém como tu.
Desculpa. Não sei a que cheiras. Há canela e lavanda, o perfume dos limões na árvore, o toque da relva nos pés. Nem sei dos teus olhos se são verdes ou castanhos. Que tempo faz hoje em ti? Se chove, cheiras a terra molhada. E, no fundo do teu sorriso, há sempre aquele travo a mel. Como se eu nunca te pudesse desiludir. Acreditas no poder do Amor (depois do mundo te desiludir, como consegues?) e em mim mais do que em ti mesma. Constróis-me assim, como gostarias de ter sido desde o início. Empenhas toda a tua paciência, compreensão e carinho a ensinar-me a ser forte e dócil, para que os embates do mundo não possam derrubar o meu sono. O que não sabes é que essa sabedoria que pensas ler nas nuvens sempre esteve dentro de ti. Ouvi, encostada ao teu peito, uma concha segredar-me as pérolas que cala o fundo do teu mar. Ouvi dos teus medos, das tuas quedas, das tuas lágrimas. Perguntei-me como consegues, depois de tudo, manter o olhar cristalino. És mais do que sabes, mais vida, mais água, mais luz. Tu és rocha dura, saindo incólume do desgaste das ondas e, em ti, tenho o meu abrigo secreto, o meu rasgo azul de céu. Eu, por ti, sou animal, possuída pela mais instintiva forma de amor. Não sei amar-te diferente. Só com tudo o que sou, procurando-te nas luzes e nos silêncios, a ti e ao teu odor cálido a vida e a sonhos.

(Deito a cabeço no teu regaço e é como se o mundo voltasse a ser uma bolsa de água, silenciosa. Como se me escondesses, e eu estivesse só contigo, onde mais ninguém me pode encontrar.)

Voo porque tenho asas. Aquelas que me deste, lembraste? Que suturaste, que cozeste remendos, que beijaste para passar a dor. Mas nenhumas asas me levam para longe de ti. Servem só para te passear até ao limite da nossa imaginação e te trazer de volta, porque qualquer realidade é doce, se tu estás. Ainda te sinto o calor, como um berço embalando-me as contas coloridas que eram as horas nessa altura. Apetece-me ser grande e cobrir-te e apagar o passado, reescrever a tua história. Mas, se o fizesse, não serias tu, pois não? É egoísmo se te quiser assim? Amar-te-ia sempre. Mas foi esse teu passo de menina, a cor de fogo que os teus cabelos roubaram à terra onde rebolavas em criança, a brisa de seda espreitando nas janelas do teu corpo que eu aprendi a amar. Foi uma mulher de contrastes que me deste a conhecer, brava nas colheitas, sensível com os espinhos insuspeitos das rosas, frágil e resistente, determinada e insegura, forte e vulnerável, de uma beleza ingénua e uma delicadeza musical. Aprendi esse mundo rico que palpita no teu peito, o teu jeito de pôr-do-sol na pradaria. Decorei as tonalidades do teu céu e não quero outro. Como poderia querer? Se és inteira em mim, se te invejo de uma admiração convulsiva. Desejo todos os dias ser digna de ti, ter alma e coração bastantes. Queria só que soubesses, dito assim, toscamente. Não o sei dizer de outra maneira.

(nunca haverá palavras que te possam olhar o brilho nos olhos)

E, ainda assim, toda eu sei, porque acendes o meu mundo, que a vida começa e acaba em ti. Queria que soubesses.


Have I told you lately that I love you?
Have I told you there’s no one else above you?

quarta-feira, março 14, 2007

The wind that shakes the barley


The wind that shakes the barley é, como a canção que lhe empresta o nome, uma viagem melódica e intimista pelos meandros dos sentimentos que unem e afastam um povo. Na linha das obras anteriores de Ken Loach e assinado com o seu traço controverso de agitador de consciências, o filme vai recuperar a cultura irlandesa, profundamente marcada por uma contínua luta pela independência. É esse espírito inconformado, resistente, idealista, que retrata o realizador britânico. Retratar é a palavra adequada. Ken Loach é, efectivamente, um dos herdeiros do realismo social, preocupado em fotografar as injustiças, capturando sensações reais. A intenção é criar no espectador um sentimento identificação, de proximidade com esses rostos anónimos em quem pinta um nome e uma estória. Assim, sem máscaras. Sacrifica-se a estética em prol da violência da filmagem, que se espera crua, opressiva. Porque a realidade não foi bela, quer-se dos sentimentos que sejam nus, despidos de artifícios e pretensões, servidos ao mais puro sabor do sangue e das lágrimas. Loach não tem medo de mostrar as mãos sem trunfos, abdicando de planos largos e de efeitos especiais, para que a atenção nunca se desprenda do horror, que é o fio condutor de uma história que fala da resistência do Exército Republicano Irlandês (IRA), mas que trespassa, ardendo como sal numa ferida, todas as guerras que já se travaram pela independência de um povo.
Já antes Ken Loach terá chocado audiências com as suas mensagens políticas radicais. Sem pudores, admite, é uma autocrítica. Contra o imperalismo, contra o poder que cega os Homens. Após receber a Palma de Ouro que laureou o filme em Cannes, Loach declarou que pretendia que o filme fosse um primeiro passo na reconciliação dos ingleses com o seu passado. Às pessoas que lhe duvidaram o patriotismo, disse, sem pretensões de maior, que atacar os erros e as brutalidades dos nossos líderes, é, acima de tudo, um dever.
Outros antes haviam traçado este trilho. Michael Collins é um filme com alguns pontos em comum. Mas Loach abdica das figuras históricas, personalizando o conflito em homens e mulheres vulgares. Por isso, descentraliza-se para uma região rural, para personagens que se sentem de carne e osso e transpõe o drama para as próprias vivências de quem o vê. Se, algures no mundo, há sempre alguém a lutar e a morrer pela independência de uma nação e se ainda pudemos aprender alguma coisa com o passado para mudar o presente, então é de todo vital que as pessoas se vejam do outro lado da tela e sintam arrepiar-se-lhes na pele a dor que é alheia, mas que transborda fronteiras. Enquanto vemos o filme, não nos abandona a sensação de estar a espiar conversas. E nem é muito o que se explora o drama, a repulsa, o medo. Há quem acuse Loach de ter deixado morrer-lhe o potencial, numa abordagem que não tira partido de toda a emotividade que vem, indissociável, da história que conta. No que toca à minha sensibilidade, Loach optou conscientemente por um estilo depurado, uma linguagem seca de cores e traços que contrasta com a verdura exuberante das paisagens, como que falando de uma realidade deslocada, e desculpando-se por essa tristeza inesperada que não deveria acontecer. Esta é uma luta de pessoas simples.
Loach tem um lugar ao sol para todos aqueles que construíram uma história. Por isso se preocupa tanto em mostrar todas as facetas da mesma revolução. Fala de mulheres, não na forma clássica de as representar, sentadas, chorando as dores que eram de todos, mas que os homens, no torpor da infâmia, tinham que calar. Dessas sim, no respeito da dor impotente, mas é às mulheres que lutaram com as armas que tinham ao alcance, que transportaram mensagens, que se envolveram nos tribunais e na política, que eram fonte de informações e alimentavam emboscadas que Loach faz uma ode; às mulheres que tomaram as rédeas do destino de um país e nele participaram tão activamente como os homens que mataram e morreram por ele. No mesmo tom, a religião não é deixada ao acaso. Não poderia ser. Irlandeses são fervorosos e o poder da Igreja é inegável na sua História. Muitos dos latifundiários que apoiavam os ingleses eram protestantes e os rebeldes, católicos. No entanto, esta coesão é deposta pelos acontecimentos e é pela voz do padre católico que se semeia a discórdia, que viria a provocar a cisão dentro do Sinn Féin, levando à guerra civil. Porque a Irlanda é um país de contrastes, unido no desespero, profundamente desmembrado nas suas crenças.
Durante todo o filme, travamos a luta de Damien e Teddy O’Donovan, dois irmãos, cujos caminhos se entrelaçam só por um momento, para logo seguirem direcções diferentes. Ao acompanharmos as acções da unidade móvel de guerrilha, sentimo-nos parte da mesma realidade. Sentimos a falta de preparação, a força da revolta, o grito de terror que lhes enevoa o horizonte. No entanto, a narrativa é desiludida, questionando o poder do amor, amargurando-se com a ambição dos homens. Pergunta-se porquê e a que leva. Se há triunfo, se há Brisa de mudança, como sugere a tradução portuguesa. O ódio é corrosivo e os ideais implicam sacrifícios. Às vezes, de valores. Não se julga, aqui. Mostra-se. É a natureza humana no seu estado mais puro. Mais do que um testemunho histórico, The wind that shakes the barley é uma reflexão acerca do impacto da guerra nas pessoas e nas relações familiares. Ken Loach é um romântico. Fala de Republicanos, que lutam por uma nação de trabalhadores e camponeses. Fala do governo do Estado Livre, primeiro disposto a vender-se aos homens de negócios para poder financiar as armas e, mais tarde, institucionalizado. Fala de extremismos e incongruências. De ideais repudiados no deslumbre do poder. Fala de paixão e de racionalidade e de como a união destes jovens em torno de uma mesma aspiração pôde quebrar-se. Nauseados de injustiças, juntaram pedras e venceram Golias, mas deixaram-se fragilizar no seu próprio seio e foram apodrecendo. O mesmo amor, a mesma vontade, caminhos diferentes. E o peso dos mortos. A toda hora, o peso dos mortos.

Agradeço ao cineclube da FDUP, que me lançou o desafio de escrever o comentário crítico ao filme, lançando-me num mergulho intenso na História irlandesa e na alma dos Homens que lhe vêm escritos nas entrelinhas.

quinta-feira, março 01, 2007

Saudosismo

Não te vi no deslumbre de uma bebedeira de cores e sons, não tinhas o glamour, nem a juventude, nem o teu céu prometia mergulhos de azul. Tinhas a sobriedade de uma velha anfitriã, a nudez rude que não fascina, nem incomoda. Recebeste-me com os teus olhos cinzentos impávidos e, no teu seio, passeei impunemente sem que uma única gaivota viesse anunciar a Primavera. Não houve violinos uivando lamentos nas ruas, nem estrelas na tua noite cerrada. Não houve quem se detivesse, quem olhasse, quem a minha passagem tocasse no seu suave restolhar. Só a cauda do teu vestido antiquado roçando-me as paredes do encantamento. Não lhe chamaria paixão.

Recosto-me e fico a olhar-te daqui, de onde ninguém nos vê. Percorro-te a pele enrugada nas fotografias, os sorrisos que a objectiva prendeu eternamente a um momento. Quase te sinto a mão gelada descendo-me pelo rosto, o raio tímido espreitando no canto dos teus lábios. É possível ter-me deixado inebriar? Já vi tantas como tu e tão mais exuberantes. Talvez tenha sido essa tua despretensão, tocando a indiferença, que primeiro me intrigou. A tua magia está para além do óbvio, da austeridade dos teus edifícios, dos traços fechados das tuas gentes. Porque ninguém sabe que, por trás das tuas fachadas, há pequenos reinos de faz de conta. Ninguém sabe que, quando as nuvens se abrem no teu rosto, tens sol ardendo-te nos cabelos. Ninguém sabe. Esse é um segredo que partilhaste só comigo.
Quando me voltar a apaixonar, prometo lembrar-me das noites boémias em ti. Das conversas de café, do homem que rasgava a alma no papel mesmo ao lado, das mãos cruzando a mesa em voos de infinito. Vou ver-te sempre vagueando por entre estantes transbordando livros, cada um com o seu perfume, a sua história, o seu pedaço de sonhos e de pecados. Vou saber dizer todos os nomes que tiveste e guardar o sabor que todos eles deixaram na minha boca. Permite-me que te use, que corra para os teus braços e respire longamente o teu travo a mundo novo. Até me saciar de sonho tornado realidade. Para que não se dissipe em mim a memória do teu olhar entrecortado pelas gotas de nevoeiro. Por isso, te escrevo, desenhando as linhas do teu corpo, para me perder quando precisar de me encontrar e saber-te real, algures nesse mundo, longe de mim.
Ficamos para sempre ligados aos lugares onde fomos felizes.

Obrigada Budapeste.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

As time goes by

Um ano...



Que tem o perfume das palavras derramadas nos olhares que as esperavam.
Obrigada por tornarem este sonho possivel.
Bem vindos ao meu mundo secreto *piscar de olho*
Nota Desculpem a ausencia de acentos, mas ainda n decifrei os recantos ocultos de um teclado estrangeiro. Beijos de Budapeste.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Pensamentos soltos



Era do barulho arrepiando-me o vómito que eu estava farta. Por isso, construí um muro de certezas e pus-me do lado dos sensatos, daqueles que viam o que mais ninguém queria ver, os que assumiam as verdades como elas são. Fiz-me heroína de história alheia, mais tolerante e mais compreensiva, mas não por acreditar num Homem melhor. Fi-lo porque me enojar a hipocrisia, por pensar que da comunidade é simplesmente o dever de cuidar o melhor possível das cicatrizes de alguém, certo ou errado. Nunca foi uma questão de opção o que argui, queria tão só dignidade. Pedia respeito por uma dor que não é de ninguém senão de quem a traz no ventre, por uma vida que merece amor desde o primeiro instante. Para que mais ninguém se sentisse sozinho, enquanto houver mãos para estender. E estive tão segura da minha opção que me doía a alma ver da vida feita roupa lavada em praça pública. Deixei-me cegar ao medo de mudar de ideias. Fechei os olhos e esperei que tudo passasse rápido. Ganhámos (todos?). E só então, sentada na sala vazia, depois de passar o cortejo, ouvi as lágrimas que amarrei durante tanto tempo contra a arrogância e perguntei-me se da guerra que travámos não saíram apenas feridos. Espero, ardendo na febre da desolação, que tenhamos escolhido o caminho certo...

E, enquanto a sociedade navega para outras águas, a vida de todos os dias continua na sua habitual placidez. Porque até a vida e a morte precisam do bendito papel («que papel?», o papel). E lá vou exercitando a minha capacidade de me rir do ridículo, enquanto um burocrata dos serviços saltita pela sala apinhada de gente cansada e mal-humorada para abrir a porta a cada pessoa que resolve sair. Isto porque é de extrema importância certificar-se de que ninguém entra depois da hora de serviço... Ou quase... Afinal, talvez o relógio esteja avariado... Também que diferença faz se encerram às 16h ou às 15h45? Porque é que as pessoas hão de andar sempre tão insatisfeitas? Faz todo o sentido, claro. Alguém que acompanhe as pessoas à porta, serviço de qualidade, não é o que se elogia no estrangeiro? No entretanto, os processos continuam a acumular na secretária, diante do olhar vazio do resto dos burocratas, que agora estão a cumprimentar a recém-mamã que chegou com o seu bebé. Não importa se o viram ontem, certamente que têm considerações a fazer sobre como o petiz «está grande e esperto». E lá vai mais uma pausa para café, porque é cansativo isto dos papéis («que papéis?», os papéis). As pessoas mexem-se, impacientes, e tossem. O velho do restelo vai-se aventurando a transformar os dizeres entredentes em críticas acesas, mete convesa com toda a gente, tudo está errado neste país. E começa na funcionária que enrola o cabelo com ar sonhador, enquanto fala ao telefone. Assuntos de trabalho, certamente. Quaisquer duas horas chegam para arranjar o papel. Isto se não tiver que voltar amanhã porque falta o documento. A máquina das senhas avariou, por isso chamam as pessoas em voz alta. O único senão é que só conhecem a letra C. É pena que a maior parte esteja para a letra A, mas porque é que havemos de ser tão esquisitos? Chegou a minha vez. Nem acredito. Esboço o meu melhor sorriso, não vá a minha cara criar mais um obstáculo à obtenção do (precioso) papel. Se calhar, enganei-me na letra. Mas para que serve a entrega de documentos?, pergunto. "Para entregar documentos", ora lá está, obviamente. Faz todo o sentido.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Babel


Somos todos iguais, diz-se quase sem sentir. Iguais quando o desespero toca as cordas estridentes do medo, iguais nas lágrimas... A dor não tem cor... Somos todos iguais, mas sentimo-nos tão sozinhos sempre que uma rajada de impotência vem abanar-nos a fragilidade. Sentimo-nos no topo da torre de Babel e ninguém fala a nossa língua... Ainda não falamos a mesma língua... Porquê?
A política estará sempre um passo à frente do homem e o preconceito cega-nos o coração às palavras dos outros. Haverá sempre leis e burocratas, muros e correntes, monstros e moinhos de vento a separar-nos. Nunca falaremos a mesma língua. Nem quando o brilho das luzes ilude a escuridão da noite, nem se a música maquilhar o silêncio. Haverá sempre alguém no pico da solidão, alguém mergulhado no seu próprio abismo, onde não há dia nem som. E quantos de nós compreenderão? Quantos de nós não julgarão antes de estender a mão? Quantos de nós?
Babel fala de esperança. Somos todos desertos, impiedosos nos erros e nas críticas, áridos na ternura que partilhamos nas ruas, de um calor tão abrasador quanto infértil. Somos todos fontes a transbordar, capazes de nos arrepender e de chorar, assustados mas solidários, frutos imbérberes de um amor maior. Somos sol e chuva e, às vezes, é apenas um pequeno gesto os separa. A cada passo cruzamo-nos com vidas iguais à nossa e temos sempre a opção de tentar ver a água que nos pede o olhar que nos espreita da esquina. Podemos ser cactos, vestirmo-nos de espinhos para nos protegermos do mundo que nos esmaga, ferir indiscriminadamente. Mas então não deixaremos ninguém aproximar-se e, quando o desespero nos tocar a nós, não haverá quem compreenda os gritos silenciosos do nosso olhar. É sempre uma escolha nossa.
Não falamos a mesma língua, mas podemos entender-nos por gestos. Podemos nem nos entender. Basta um abraço, as lágrimas são todas iguais.

domingo, dezembro 24, 2006

Água



Como um riacho, correndo silenciosamente por entre as pedras. Incolor, sem sabor. Quase pedindo licença para acontecer. É ser-se assim, mulher. Mas fonte de vida, força da natureza que move o mundo. Frágil, só no aspecto. Delicada. Submissa. Trauteando inaudivelmente a sua melodia triste. E não importa quantas barragens se construam, quanta areia se lhe roube… Não importa, porque a água haverá sempre de encontrar um caminho por onde passar e continuar a alimentar bocas secas e terras inférteis. É de uma bondade infinita, ainda que tão poucas vezes os olhos vejam nela para além do seu próprio reflexo.
Porquê, porque continuamos a estreitar-lhe as margens? Pensamos sempre que a descriminação está tão longe… E continuamos a desculpá-la, a fechar-lhe os olhos em nome de um pretenso respeito pela cultura e pela religião. Ainda que assuntos de bolso já justifiquem que se rompa esse tão oportuno respeito. Pois eu digo para quem quiser ouvir, o preconceito está-nos entranhado na carne. E de tão irracional eu me pergunto como nasceu. Já lhe chamei medo ou talvez ignorância… Mas nada – nada disso! – legitima a crueldade. Em certas épocas e lugares, enclausuramos mulheres em vestes brancas ou em burkas, matando-as em vida. No nosso mundo perfeito, aceitamo-las como supostas “iguais”, mas do resquício de divindade na mulher, que continuamos a tentar estrangular, resta muito pouco, enquanto as mergulhamos em medos, culpas e outros constrangimentos sociais. Invertemos as formas e da pureza natural da mulher fizemos uma árdua conquista. Já se contam muitos os nomes que lhe deram, aceitando-se sempre que o homem estivesse acima do bem e do mal e à mulher coubesse o heróico papel de manter-se imaculada, não obstante o pecado e a discórdia que carrega consigo. Eva, Maria Madalena, Helena de Tróia, Pandora… Em cada história, uma lição envenenada. É tão prático sacudir dos ombros uma responsabilidade que uma tradição milenar faz recair sobre as mulheres… É tão fácil…
Hoje vangloriamo-nos de termos dado às mulheres o leme das suas próprias vidas (que evoluídos que nós somos!), mas continuamos a apontar-lhes o dedo, a mantê-las presas a considerações sobre a sua sexualidade, a sua carreira e a educação dos filhos. Exigimos-lhes que sejam super mulheres, que se dividam constantemente para que nunca falte conforto e repouso aos seus homens. Não é também essa uma forma de prisão? Demos-lhe a escolha, mas barrámos-lhe os caminhos, manipulando-as frequentemente através da sua particular fragilidade… O relógio biológico. Não estará na hora de partilharmos efectivamente responsabilidades? Os homens que o desejam continuam a ser carimbados como ovelhas tresmalhadas, rotulando-os com anedotas machistas, confundindo justiça com feminilidade, calando-os à força do preconceito. São tantos os estratagemas… Instituições aceites pela sociedade e jamais questionadas sem que se levante um riso trocista e talvez aquele comentário boçal “feminista”.
Não pretendo luzes, nem passadeiras vermelhas, só me pergunto… Em que momento o branco amordaçou as cores dos saris? Qual é a ténue fronteira entre a beleza impoluta das deusas dos poemas e as mulheres que negligenciamos todos os dias? Porque continuamos a tentar controlar as forças da natureza? É uma batalha perdida, sempre o será. Pode ter custado muitas lágrimas, muitas vidas devotas a um sofrimento ímpar, quantos assassinatos a sangue frio, quanta maldade… Pode levar séculos, mas a água jamais irá parar.


Já agora... “Water” é um filme obrigatório.







sexta-feira, dezembro 15, 2006

Geração rasca?


Esgota-se o tema em si mesmo de cada vez que concluo, trauteando pensamentos entre um dizer e outro, que cada geração, imbuída das particularidades do seu tempo, dá à luz pessoas brilhantes e comuns ou - deveria dizer - pessoas que se distinguem socialmente e outras que se fundem na massa homogénea do anonimato; bons profissionais e medíocres; pessoas cultas e desinteressadas, familiarmente integradas e sólidos independentes. Não é disso que me cabe falar, ainda menos julgar. Parece-me inconclusivo e até desnecessário.
Permitam-me, contudo, a ousadia de questionar esta sociedade de facilitismos. Não posso deixar de sentir as vísceras contorcerem-se de cada vez que me deparo com professores a dissertarem para uma sala vazia ou quase pedindo licença para ensinar uma plateia demasiado ocupada entre a azáfama dos telemóveis e da conversa sobre a vizinha do lado. Há palestrantes a mendigar audiência pelos corredores... Entristece-me, não posso negar, cai-me como um seco murro de raiva no estômago. Houve tanta gente a lutar para que pudessemos ter o conhecimento ao alcance da nossa sede, todos os dias, que me parece de todo desprezível a indiferença quase a rasar o desrespeito que habita os olhos dos meninos de hoje.
De que serve instituir faltas de presença nas aulas e créditos a seminários, falseando uma responsabilização que deveria brotar espontaneamente das consciências? Sem qualquer réstia de moralismo, o que digo vem de um profundo desgosto que me rói e da vergonha de uma geração que confunde tirar uma licenciatura com saber ser e de um país que o permite. Levámos o paternalismo de toda uma nação pós-salazarista, imersa em culpas e traumas, a um extremo que em nada nos eleva. Pelo contrário. Fizemos das nossas crianças pequenos ditadores, tudo em nome de uma formação livre de rejeições, segundo os ditâmes da psicologia dita moderna. Qualquer "não" dito na mais tenra idade poderá causar uma ferida profunda que se repercutirá em cada gesto para o resto da vida. Presumo que estejamos a considerar que vivemos num país de pessoas intrinsecamente perturbadas, à força de bastantes gritos e um punhado de estaladas numa infância cega a métodos pedagógicos e alheia a computadores!
Chegámos a um ponto de ruptura. Somos todos formados e cidadãos europeus, mas nunca saímos do país, nem aprendemos senão a decorar e, quem sabe até, com um certo jeito, a colar a matéria dos manuais no exames. Continuamos a ser a sociedade dos "chicos espertos", mas agora perfeitamente legítimos e justificados, afinal porquê trabalhar quando haverá alguém que nos levará ao colo? Os esforços, maiores ou menores, dos nossos pais conquistaram-nos um lugar ao sol e, por isso, merecemos dedicar-nos o resto da vida ao diletantismo. Até porque há uma espécie de semi-divindade que nos coloca numa posição de superioridade face aos comuns mortais. Nós podemos, é a palavra de ordem. Mas e o que é que nós fazemos?
Não me interpretem mal. Era urgente mudar, apaziguar o autoritarismo e dar garantias às gerações vindouras. Mas isso não é sinónimo de retirar toda a carga de responsabilidade, consciência e esperiências (boas e más) que compõem a vida de qualquer pessoa. O crescimento também se faz de quedas, que ensinam lições de humildade. Estamos a criar pessoas inutéis, que vivem através da televisão e a qualquer adversidade se trancam no gabinete do terapeuta. Vamos mostrar às nossas crianças o prazer de um fruto arrancado com as nossas próprias mãos, a satisfação de um reconhecimento merecido. Vamos desligar a televisão e explicar-lhes que não há um público a avaliar os nossos passos e que é a nós mesmos que devemos primeiramente o respeito de sabermos que conquistámos o nosso espaço. Vamos ensinar-lhes que a auto-estima se contrói de lágrimas e suor e do deleite de saborearmos o caminho. Vamos gerar um futuro capaz. É urgente.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Longe demais


Foi a forma como ele disse Miguel. Não era o timbre da voz, nem a pronúncia, mas a combinação de sons, silêncios e cor que transformavam a promiscuidade daquela palavra, saltitando de boca em boca, numa palavra única. Miguel, dito assim, era a assinatura dele. Tê-lo-ia reconhecido entre mil bocas dizendo Miguel. Jurou ouvi-lo, escorrendo daqueles lábios, exibindo uma fileira de dentes perfeitos. Mas não era ele, faltava-lhe o dente afiado desafinando a melodia perturbantemente doce que era o rosto de Fernando. O sorriso que escondia aquela voz não era o dele, mas a palavra pairava ainda no ar como uma nota solta.
- Ouviu-me, Miguel? Perguntava-lhe se já terão o orçamento na próxima semana.
Enquanto descia a rua, Miguel perguntava-se quantos anos teriam passado desde que ouvira o seu nome ser dito assim e porque tinha perdido as pontas dos laços que o prendiam à única pessoa que nunca tinha conseguido esquecer. Uma cena com um namorado de Fernando, recordava-se vagamente. O seu olhar castanho engolindo abruptamente um sentimento que, pela primeira vez, não soubera ler-lhe. Pensou que ele voltaria, como sempre fazia depois de uma discussão. Fernando era uma pessoa tempestuosa. Mas na semana seguinte estaria de novo vagueando pela sala com uma garrafa de whisky na mão e aquele sorriso imperfeito e diria "Larga lá isso, Miguel, hoje vamos comemorar.". E rir-se-iam, ririam até saltarem lágrimas do canto dos olhos. Porque na sua vida de comuns rapazes nunca havia nada a comemorar. Sim, eram ainda rapazes naquela altura. Depois Fernando sentar-se-ia junto da lareira a desfiar o novelo das zangas com o último namorado e Miguel suspiraria, lamentando ter passado já demasiado tempo desde que se deslumbrara com as birras de alguém. Ficariam assim até de manhã, fazendo contas à vida. Nunca chegavam a conclusão nenhuma, isso era um tácito ponto de honra entre eles. Mas Fernando não voltou. Nem naquela semana, nem na seguinte, nem em todas as que se seguiram.
Miguel passou a mão pelo cabelo quase grisalho, recordando-se da sua antiga cor despudorada de sol de verão. Loiro e pequenino, tinha sido sempre a razão pela qual Fernando rasgara calças e joelhos, fazendo-se valer de todo o seu 1,90m para o defender. Maldito orgulho, pensou, que o impediu de procurar o amigo. Lembrava-se vagamente de ter telefonado uma ou duas vezes, mas tinha-se deparado sempre com a gravação irritante do atendedor de chamadas. Nunca gostara dessas modernices, arrepiava-o a impessoalidade de falar para o vazio. Essas chamadas nunca foram retribuídas.
- Amanhã é longe demais, sempre os sensatos conselhos de Sara. Miguel sabia bem porque casara com aquela mulher. Não lhe enaltecia os sentidos na febre das paixões, mas apaziguava-lhe a alma, dava-lhe um chão depois de tantos anos à deriva. Lançara âncora devagar, mas para nunca mais partir daquele porto. Amava-a. De um velho amor adocicado. Se tivesse tido um filho, ter-lhe-ia chamado Fernando, mas Sara tinha o ventre seco. Era ele o menino dela e Miguel apreciava-lhe a ternura. Ela pousou-lhe a mão no queixo, conduzindo-lhe o olhar para o dela. «Sabes o que tens a fazer.».
Tocou a campainha, sentindo apertar-se-lhe no estômago o peso dos anos. Perguntou-se o que diria, o que faria, se o amigo assomasse à porta. Tentou imaginar o que seria do seu cabelo preto e das longas pestanas ladeando-lhe os olhos. Ter-lhe-ia a vida traído a beleza? Imaginou-lhe a barba por fazer, fazia parte do charme de Fernando. Nunca conhecera outro como ele, arrastando toda a nostalgia romântica dos galãs a preto e branco no seu passo seguro, com as pontas do cachecol a flutuarem-lhe irremediavelmente atrás. Fantasiava que a sua vaidade permanecesse intacta.
- Sim? Era uma voz de mulher. Enganara-se na campainha, o número da porta oculto sob a poeira da memória. Há seis meses que o apartamento de Fernando estava abandonado. A vizinha era simpática e Miguel subiu. Da porta violada e dos estores partidos, não se lembra senão da desolação de ver o passado afogar-se eternamente nas águas fundas do esquecimento.
Esse Inverno foi sombrio, submerso em culpas e alucinações. Mas seguiu-se a Primavera e, por fim, o Verão. Com carinho, paciência e muitos bolinhos de canela, os seus preferidos, Sara foi quebrando o gelo, acalmando-lhe as dúvidas, lembrando-lhe que nunca se deve deixar o remorso esmagar a magia das recordações. Viram muitas fotografias juntos e choraram no ombro um do outro. Os sentimentos naufragados, os gestos errados, os anos que o separavam da reconciliação que nunca tentou, todas as feridas abertas foram sucumbindo ao perdão e à aceitação de que não poderia exigir mais de si do que o que saberia na altura. Miguel tinha voltado à loja de informática, à azáfama dos preparativos para a viagem de férias e não pensara mais em remexer na inevitável partida do seu amigo.
Até àquele dia. Era uma dessas tardes pachorrentas de Junho, Sara tinha saído para fazer umas compras e Miguel organizava a contabilidade, quando a campainha tocou. Estranhou, não estava à espera de ninguém. Talvez Sara tivesse convidado algum amigo para lanchar e se tivesse esquecido de lhe dizer. Arrastou as pantufas até à porta para receber, desconfiado, um pequeno rapaz, meio ofegante. Era uma encomenda, não tinha remetente, só um selo um pouco gasto que indicava ser de Paris. A data era de há uma semana atrás. Abriu, suspenso a meio tempo entre a curiosidade e o medo. O coração quase lhe parou ao reconhecer a letra.
«Querido amigo, talvez tenha passado tempo demais. A vida cobra caro cada porção de silêncio. Espero que não seja já tarde para te pedir desculpa. Desculpa por não te ter atendido o telefone, nem te ter voltado a procurar. Desculpa por não ter ido ao teu casamento, por não te ter levado a beber um copo no dia em que soubeste que nunca poderias ser pai. Não te espantes, eu fui sempre sabendo de ti, comemorando as tuas vitórias e sofrendo as tuas tristezas. Estive sempre por perto. Espero que venhas a compreender. Quando soube que a minha vida se tornara mais frágil do que uma pequena folha estaladiça de Outono, não pude ficar para ver os teus olhos tristes. Perdoa-me o orgulho, nunca consegui aceitar que me visses encolher-me sobre a minha própria pequenez. Erros, amigo, erros que se pagam caro. Agora que só espero que um último sopro de vento venha apagar a minha chama, achei que talvez não fosse tarde demais para te dizer: Desculpa-me. Do teu sempre amigo, F.»

quarta-feira, dezembro 06, 2006

O universo em ti

Fotografia em www.fotolog.com/vanish_ladies


É aparente a indiferença. Só pode ser. Não me digas que nunca sentiste o tempo parar perante a imensidade do mar, eu não acredito. Ou que não viste uma lágrima chegar ao ouvires uma música e ficaste, assim, de olhos fechados, fundido num momento intemporal. Seria demasiadamente pesado sentirmos a materialidade da nossa existência o tempo todo. Mas há momentos… Há quem chame abstracção, eu prefiro consciencialização. Há momentos em que ascendemos a tudo aquilo que somos, apanhados desprevenidos por um pingo de chuva no verão, estremecendo diante de um olhar. Como se de repente soltássemos as amarras da cegueira que nos distrai o tempo todo e víssemos, pela primeira vez, a essência de um mundo que não pára de se reinventar. Há um milagre em cada um dos teus sonhos e em cada manhã em que acordas. Um milagre em cada um de nós. E uma história, e tormentas, e amores e tantas memórias. Sinto-me tonta só de pensar. Como quando imagino o universo.


Há um universo em ti, sabias?


No trilho que deixam as mãos quando te passam no rosto, a poeira das estrelas sacudida dos teus ombros; há um rio correndo nos teus olhos e um cheiro por detrás das orelhas que é só teu. Há um segredo em cada um dos teus poros, uma melodia irrepetível no timbre da tua voz, uma assinatura única na forma como caminhas. Não precises de te apaixonar para ver isso. Não esperes para perder para reconheceres a autenticidade de alguém. E não deixes de te amar a ti próprio, nunca, em momento algum. Gosta dos teus defeitos, do nariz torto, do dedo pequeno, do cabelo rebelde. Sente-lhes o sabor a sal e a trovoada. Agradece-lhes por te tornarem perfeito. Ama a perfeição nos pormenores. Cada segundo e todas as inspirações que lhe vêm coladas à pele. Não percas tempo com críticas, não deixes de te emocionar. O presente é aqui e agora. Conversa contigo próprio. O tempo todo. Ri-te dos teus erros, não tenhas medo de chorar. Abraça a vida com força, sente-lhe as arestas, desespera se for preciso até o riso te nascer nas entranhas. Mas vive, vive o teu pedacinho de universo. Escreve as tuas pegadas, risca o teu nome na areia, sem medo de se apagar. Haverá sempre cimento fresco para o recordar. Diz às pessoas que as amas e recebe o amor delas com a certeza de que o mereces. E, todas as noites, quando deitares a cabeça na almofada virá um sorriso pousar-te nos lábios. Porque a intensidade é o segredo. Não te esqueças, sê lua que brilha no lago inteiro. Se estiver lua nova, não interessa. Aprender-te-ei os ciclos. Mas reflectir-te-ás sempre em mim, mesmo que mais ninguém te veja. Há todo um universo em ti.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Viperina

Fotografia em www.fotolog.com/vanish_ladies

É o teu riso, que outrora fustigou as cordas vibrantes da minha felicidade, o teu olhar perspicaz, despindo-me os medos e ansiedades. Esse teu tom doce e a carícia que pousas, quase por descuido, femininamente no meu ombro. São as promessas de eternidade ecoando no meu peito esvaziado de toda a ternura por ti. Sou eu, frágil na minha intimidade, diante do teu dedo acusador mascarado de elogio, da tua requintada ironia e crueldade. E quem nos visse assim, braço dado, sorrindo pela rua, diria que a amizade resiste às tempestades do ciúme doentio e da paixão. Di-lo-ia sem se aperceber do rubor escaldando-me a face e o coração apertado, tão pequeno, contra o desgosto e da máscara vitoriosa no teu rosto, que nunca deixas cair. Sacodes-me com a ponta da tua unha cuidada e pensas que assim te consegues livrar dos fantasmas da inveja que te esmagam a altitude. A autenticidade faz-te sombra? Talvez não te sintas suficientemente boa. Serei eu só o pretexto? Penso que terás visto em mim aquilo que desejaste ser.
Tens uma forma cadenciada de atacar, seduzindo-me cortesmente para o teu ninho de intrigas e traições, fazendo-me acreditar num passado que foi sempre só meu. Quando me tens, bem presa entre na tua teia, sibilas palavras pontiagudas e fá-lo de com uma voz melíflua, tão delicada que pareces cantar. No sangue derramado, cospes o teu veneno e ficas, recostada, a saborear a contorção do corpo moribundo, amordaçado pelas mãos da vergonha e do constrangimento social. Pensas que assim neutralizas o poder que, distraidamente, emano sobre ti. Eu olho-te, já sem que a íris se me raie dessa estranha espécie de dor que é a desilusão. Olho-te, atentamente, analisando-te sem carinho ou compaixão. Retiro o espinho que deixou a tua passagem e a lágrima seca por não haver rio por onde correr. Já em ti vejo pingar o ácido que trazes na língua, percorrendo-te a alma de calafrios. Aliviou-te o que disseste, o que fizeste? Permite-me ousar dizer que não. Vejo-o no teu sorriso macilento, ainda que o olhar continue a manter aquele rasgo viperino que, por descuido, se pode confundir com vitalidade. Para alguém tão inteligente até que demoraste a perceber que o que te intimida não é a minha presença, mas a ausência dela em ti. Assim, serei sempre o que nunca conseguiste ser, enquanto tu te aninhas na tua mediocridade. Desculpa-me a sinceridade, para hipócrita já basta essa dança de cortesias que representas tão bem.
Tens o jogo na mesa, as mangas arregaçadas, como sempre estiveram. O meu ás é, precisamente, a despretensão de querer ditar as regras. Vou continuar a aceitar os teus falsos dizeres e os teus truques sujos e a ignorar o brilho malicioso acautelando-te os passos. Não quero saber o quanto de prazer tiras disso se, para me magoares, precisas que eu te deixe. Já houve dias em que bebi sofregamente as palavras da tua boca, em que arrisquei deixar-te entrar. Agora a porta está fechada, para ti há só restos ou nada. Nunca poderei ser a ponte para a tua felicidade. Nunca, debaixo dos teus pés, te farei uma pessoa melhor. Tenta aprendê-lo por ti, o quanto antes. Para mim, és apenas um ser abandonado à sua própria humilhação, um pedaço desfigurado daquilo que pudeste ser. Compreende que sugares a seiva que corre sob a minha pele não reinventará a tua. Não sou um obstáculo, tão só uma realidade com a qual tens que saber viver. Se para ti isso é demais, minha querida, já não é um problema meu. Para mim, chega de enredos e de mentiras. Não quero fazer da minha vida um teatro. Deixa-te de erguer moinhos de vento, um dia já te quis tão bem… Tens o segredo do carisma por entre as mãos, mas ele vai-te escorrendo pelos dedos em cada manhã que escolhes o caminho mais fácil. A ambição, a sede interminável de monopolizar a vida dos outros, cegou-te os olhos para o essencial. Procura-o em ti. O meu papel na tua vida acabou por aqui.


terça-feira, novembro 14, 2006

Pequenas gotas de cristal


Houve quem lhes chamasse pequenas gotas de cristal
Pérolas encobertas nuns lábios apertados.
Quem lhes escrevesse poemas,
Quem lutasse e enlouquecesse por elas.
Houve quem morresse por as acreditar.

Na sua eterna juventude de seixos rebolando pelos séculos, as palavras conservam essa beleza ousada que inebria loucos e poetas, umas vezes cruel, outras doce, sempre capaz de render uma vida à devoção. Se me perguntassem se as amo, diria que talvez tenham sido a minha verdadeira e insolúvel paixão. Se me perguntassem se viveria sem elas, perguntaria de volta se é possível viver sem alma. Talvez seja, como um junco flutuando despido de vontade ao sabor dos caprichos do vento. Mas, em mim, as palavras fazem vibrar as cordas enferrujadas das emoções. Gosto de ficar de olhos fechados, sentindo-as escorrem-me como beijos pelas curvas e recantos das recordações, de correr atrás delas, rindo e desesperando. Faço-as acontecer, um poder que não é só meu. Há nelas uma qualquer vontade de nascer. Quando é hora, desprendem-se do carnal espectro da minha mortalidade e pingam sobre o papel, deixando para trás apenas aquele perfume quase imperceptível a jasmim dos sonhos que nos acordam à noite e se confundem com a realidade. É inevitável pensar nelas, revivê-las, reinventá-las, amá-las até à inconsciência. Ter sobre elas um insensato sentimento de posse, cunhá-las como impressão digital. Rodeá-las de segredos e chaves secretas, códigos complexos e enigmas indecifráveis, trancá-las sob a sombra obscura dos sentimentos jamais confessados. Para que nunca sejam de ninguém tanto como minhas. É nelas que se liberta a minha ténue humanidade para que eu, quando, como folha estaladiça, me despedaçar sob o peso inevitável dos anos, seja fada saltitando a minha derradeira essência por estas linhas.
Ando cega, escutando-as a toda a hora. Vejo-as espreitar do bolso do casaco castanho que se agita ao fundo, de um olhar felino, de um meio suspiro que juro que quase ouvi, mas as palavras são ninfas infantis que gostam de inventar jogos de faz-de-conta. Afinal de contas, é de mim que elas brotam. Por isso, dispenso o mundo por agora. Preciso de estar com elas. Penso-as a dormir e sonho-as acordada, embalo-as o tempo todo, porque elas são a mais profunda expressão do meu mundo, um reflexo do meu ego. Rompem-se-me do peito com angústia e ternura, com a violência de um grito incontido, manipulam-me o sorriso, não me deixam descansar e eu devo-lhes uma total lealdade. São como crianças, dormitando ao sol e à chuva da minha intempestuosidade e quem as vê assim, tão frágeis pedindo para acontecer, não lhes sabe a tirania. Queimam como droga corroendo-me as veias, tatuadas com a voluptosidade do fogo na minha pele, são pedaço de mim para onde quer que eu vá. Desenham cortinas sobre os meus passos, alheios aos dias, de tão perdidos na perpétua necessidade de lhes dar vida. Estão tão entranhadas que às vezes já nem sei se escrevo para as viver, se vivo para escrever. A tudo, eu procuro-lhe as palavras, os sentimentos como corpos mortos dos quais disseco qualquer coisa para dizer, uma observação constante de um mundo que se faz daquilo que penso. Há mais de construção do que de realidade, mais de interpretação do que de autenticidade. Não é isso que afinal fazemos a toda a hora? Condicionar as vivências por aquilo que sentimos e queremos ver. O amor toldando-nos os sentidos, as doutrinas e supestições, crenças e tradições. São as palavras o meu filtro de memórias, canalizando tão só aquilo que desejo reviver. E, ainda que não deseje, por vezes é imperativo.
É como digo, elas mandam. Escolhem as pessoas e as datas, apoderam-se-me do espírito e da mão e criam novos mundos. Por isso, digo que não saberia viver sem elas, sem esse cordão invisível sobre o qual equilibro cada lufada de vida, que guia os meus passos, que dá materialidade ao meu ser, tão imprescendível como respirar. Não saberia, pois. Sou delas, ausente num permanente estado de embriaguez que me deturpa as imagens. Se no meu espelho, fores mais gordo ou mais alto, se os teus traços flácidos de repente tomarem o vigor de um belo princípe encantado ou te nascer uma veruga mesmo no meio do nariz, não me leves a mal. É da intensidade que se geram as palavras e a normalidade nunca convenceu. As palavras são lendas que nascem do rodopiar imprudente do mundo, exigentes nas suas manobras de diversão, alimentadas de pequenas mentiras. Mas as mentiras na boca delas são verdades. Não me leves a mal. São assim as palavras e eu serei sempre escrava do "palavrear".



domingo, novembro 12, 2006

Diz-se por aí...

Diz-se por aí da vida os maiores disparates. Como se se pudesse encartilhá-la e vendê-la às lições! Que é do grito dos pássaros, pergunto-me eu, do leve sibilar das asas roçando contra o tecido dos vestidos? Aos olhos da diferença formal a que nos prostramos, somos todos irritantemente iguais, formiguinhas correndo de um lado para o outro, tentando açambarcar cada pedra e pauzinho com os quais nem sabemos bem o que fazer. É tanta a inutilidade obstruindo-nos os poros que um grão de areia no sapato errado atiça logo a fúria dos deuses, eis que se urge a tempestade e lá andamos nós a correr para o psicólogo, que é um ser tão confuso e indeciso como nós. Que é do azul irrompendo dos dedos, das conversas que enganam as horas e, de tanto se darem aos ouvidos atentos, deixam os lábios a doer? Um dia, damos por nós confortavelmente sentados no nosso trono de pedras e pauzinhos e sentimos que, para além da intempestiva majestosidade da muralha que construímos à nossa volta, há um ser frágil, que nunca tivemos tempo de conhecer. Nesse momento, amaldiçoamos a vida que não soube esperar por nós, os anos que se consumiram na febre de tentar ser alguém. Ser alguém. No novo dicionário dos afectos, ser é sinónimo de ter. Que é das discussões acaloradas, dos abraços apertados, das lágrimas sinceras lavadas por entre o granito das ruas, porque não se escolhe quando vai chover? Porque nos escorrega o tempo entre os dedos e a materialidade das coisas nos vai iludindo o coração desassossegado? Há uma sucessão de perdas na perpétua insatisfação que nos corrói os nervos, a frustração da espera por coisa nenhuma, um vazio insuprível nos passatempos como ópio para a solidão. Essa solidão que nos vem colada às penas, como um brasão, uma herança de rostos desconexos espreitando por entre os segundos desprevenidos do nosso estar. Efectivamente, não gosto de aparências. Representamos as pessoas que somos e que queremos ser, mas quanto há de autêntico em cada gesto? Casualmente descuidado, levemente despenteado... É como nos tivessemos transformado de repente nos nossos próprios, permanentemente atentos e profundamente aborrecidos, editores de imagem. Que é das longas viagens pela Europa, chinelos e mãos nos bolsos, o estômago revolto na sede do conhecimento? Temos que representar para disfarçar a lacuna de tudo o que não sabemos sobre nós. Porque a televisão nos poupa o trabalho de estarmos connosco. Temos mais que fazer. Deus nos livre do ócio! Temos que nos sentir úteis, é uma certa forma de status. Que é dos pensamentos soltos, voando sobre o papel, das eternas filosofias construindo explicações improváveis sobre o universo, das angústias profundas, das insónias de paixão que servem de berço para doces sonetos infelizes? Somos todos colagens. Um pouco daquela actriz, mais um pouco do outro jogador de futebol e até do humorista a que achamos uma certa piada. Apetece-me arrancar pedaços, rasgá-los com os dentes, quando um deles sangrar, saberei que é genuinamente meu. Estou cansada de sorrisos plásticos, de espelhos que se reflectem infinitamente, de todos os complexos aparelhos que montámos à nossa volta para nos esquecermos de procurar quem somos. Quero o sujo e o feio, o perdedor e o errado, porque fazem parte da vida. Quero atravessar os espelhos que se imitam e descobrir a que sabe a verdade ao contrário. Perceber a humanidade descolando-se de um olhar que o botox, à revelia das leis do universo, tornou eternamente jovem, encontrar o charme oculto num nariz imperfeito, na madeixa fora do sítio e na voz engasgada. Quero um punhado de pensamentos desordenados, um coração sobressaltado, um sono desassossegado. Que é dos olhares que se demoram nos trilhos já tantas vezes percorridos de um rosto, dos abraços que engavetam recordações, passes de mágica, a alquimia dos sentidos? Quero a fúria do mar debatendo-se contra a areia molhada dos afectos, uma guerra de rendições e de suspiros tolos. Quero ver o mundo cor-de-rosa, andar de pernas para o ar, quero encontrar a vontade desesperada de estar contigo, voltar para casa com os lábios cansados de inventar conversas, recriar teorias improváveis para o universo e ficar só a imaginar que todo ele pára para testemunhar esse momento. Sê a linha imperceptível dos meus pensamentos, rouba-me aos segundos um pouco de atenção, desperta-me da nostalgia da espera por coisa alguma, como febre doentia para os meus sonhos ébrios, fascina-me, prende-me e não me deixes dormir. Quero sentir a autenticidade violenta dos beijos tocando as teclas de aço dos meus sentimentos e ficar a ouvir-te desafinar a melodia de um amor imperfeito. Vou morder o isco e sair impune, pecando a ousadia de me sentirviva, profundamente viva, imprudentemente viva.

domingo, outubro 01, 2006

Minha pequenina













Fotografia em www.fotolog.com/vanish_ladies

Uma e outra vez, mostra-me na palma das tuas mãos a alegria arrancada ao centro da Terra, desmanchando os meus moinhos de vento na tua gargalhada, rodopiando na minha cabeça como um louco carossel de cócegas. Vamos dividir o chocolate [ninguém está a ver] e lutar pela surpresa dentro do ovo; se depois me abraçares, semeando decalques das tuas mãos pequeninas na minha camisa, eu não vou reclamar. Deixa-me só entrar no teu mundo de faz-de-conta, rebolar no chão contigo, pincelando o ar de risos coloridos. Contigo vou dançar como um patinho e sentir-me uma princesa, ver todos os desenhos animados sem me preocupar se já quase sei os diálogos de côr e cantarolar a música da Floribella, tu tens na voz a alquimia que a transforma na mais bela para os meus ouvidos. Vou aprender o teu dialecto desconhecido e a tratar pelo nome uma dezena de bonecos iguais.
Quando te vens aninhar nas minhas pernas, achando o espaço exacto que tens no meu coração, sei que tudo está no seu devido lugar. Não há nada para além dos teus olhos em forma de lua a sorrirem nos meus. Dizes-me um segredo, tropeças no meu nome e rimo-nos, como se a vida não nos pudesse magoar. Passas os dedos no meu cabelo, deixando um rasto de estrelas, e eu encosto o meu rosto ao teu para sentir-lhe o cheiirinho a bébé. Em breve, terás adormecido, os teus braços à volta do meu pescoço, a tua vozinha dissolvendo-se num respirar profundo de satisfação. Apetece-me ficar ali contigo, só a ver-te dormir, sentindo os laços de ternura apertarem-se com força no meu peito, invadida pela Paz que inspiras, perguntando-me em que jardins encantados brincarás neste momento.
Há no teu jeito simples de criança uma qualquer magia que me apaga os problemas e desliga as preocupações. Na sabedoria do teu sorriso sincero há uma carícia que, como uma torrente de água fria descendo sobre o meu corpo, me acorda para a importância de estar só para ti, inteiramente para ti. Sacudo as sombras que trouxe nos ombros, dispo qualquer fragmento de tristeza esquecido no meu olhar, e abraço-te, sentindo-me infinitamente feliz por existires. Porque és tão pequena e já sabes a beleza do Amor, saiba eu dar-to sempre fresco e suculento, saboreado aos pedaços.