sexta-feira, fevereiro 16, 2007
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Pensamentos soltos
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5:45 p.m.
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terça-feira, janeiro 16, 2007
Babel
Não falamos a mesma língua, mas podemos entender-nos por gestos. Podemos nem nos entender. Basta um abraço, as lágrimas são todas iguais.
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3:29 p.m.
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domingo, dezembro 24, 2006
Água
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sexta-feira, dezembro 15, 2006
Geração rasca?
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12:29 p.m.
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sexta-feira, dezembro 08, 2006
Longe demais
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12:53 p.m.
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quarta-feira, dezembro 06, 2006
O universo em ti
Fotografia em www.fotolog.com/vanish_ladies
É aparente a indiferença. Só pode ser. Não me digas que nunca sentiste o tempo parar perante a imensidade do mar, eu não acredito. Ou que não viste uma lágrima chegar ao ouvires uma música e ficaste, assim, de olhos fechados, fundido num momento intemporal. Seria demasiadamente pesado sentirmos a materialidade da nossa existência o tempo todo. Mas há momentos… Há quem chame abstracção, eu prefiro consciencialização. Há momentos em que ascendemos a tudo aquilo que somos, apanhados desprevenidos por um pingo de chuva no verão, estremecendo diante de um olhar. Como se de repente soltássemos as amarras da cegueira que nos distrai o tempo todo e víssemos, pela primeira vez, a essência de um mundo que não pára de se reinventar. Há um milagre em cada um dos teus sonhos e em cada manhã em que acordas. Um milagre em cada um de nós. E uma história, e tormentas, e amores e tantas memórias. Sinto-me tonta só de pensar. Como quando imagino o universo.
Há um universo em ti, sabias?
No trilho que deixam as mãos quando te passam no rosto, a poeira das estrelas sacudida dos teus ombros; há um rio correndo nos teus olhos e um cheiro por detrás das orelhas que é só teu. Há um segredo em cada um dos teus poros, uma melodia irrepetível no timbre da tua voz, uma assinatura única na forma como caminhas. Não precises de te apaixonar para ver isso. Não esperes para perder para reconheceres a autenticidade de alguém. E não deixes de te amar a ti próprio, nunca, em momento algum. Gosta dos teus defeitos, do nariz torto, do dedo pequeno, do cabelo rebelde. Sente-lhes o sabor a sal e a trovoada. Agradece-lhes por te tornarem perfeito. Ama a perfeição nos pormenores. Cada segundo e todas as inspirações que lhe vêm coladas à pele. Não percas tempo com críticas, não deixes de te emocionar. O presente é aqui e agora. Conversa contigo próprio. O tempo todo. Ri-te dos teus erros, não tenhas medo de chorar. Abraça a vida com força, sente-lhe as arestas, desespera se for preciso até o riso te nascer nas entranhas. Mas vive, vive o teu pedacinho de universo. Escreve as tuas pegadas, risca o teu nome na areia, sem medo de se apagar. Haverá sempre cimento fresco para o recordar. Diz às pessoas que as amas e recebe o amor delas com a certeza de que o mereces. E, todas as noites, quando deitares a cabeça na almofada virá um sorriso pousar-te nos lábios. Porque a intensidade é o segredo. Não te esqueças, sê lua que brilha no lago inteiro. Se estiver lua nova, não interessa. Aprender-te-ei os ciclos. Mas reflectir-te-ás sempre em mim, mesmo que mais ninguém te veja. Há todo um universo em ti.
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segunda-feira, novembro 20, 2006
Viperina
Fotografia em www.fotolog.com/vanish_ladies
É o teu riso, que outrora fustigou as cordas vibrantes da minha felicidade, o teu olhar perspicaz, despindo-me os medos e ansiedades. Esse teu tom doce e a carícia que pousas, quase por descuido, femininamente no meu ombro. São as promessas de eternidade ecoando no meu peito esvaziado de toda a ternura por ti. Sou eu, frágil na minha intimidade, diante do teu dedo acusador mascarado de elogio, da tua requintada ironia e crueldade. E quem nos visse assim, braço dado, sorrindo pela rua, diria que a amizade resiste às tempestades do ciúme doentio e da paixão. Di-lo-ia sem se aperceber do rubor escaldando-me a face e o coração apertado, tão pequeno, contra o desgosto e da máscara vitoriosa no teu rosto, que nunca deixas cair. Sacodes-me com a ponta da tua unha cuidada e pensas que assim te consegues livrar dos fantasmas da inveja que te esmagam a altitude. A autenticidade faz-te sombra? Talvez não te sintas suficientemente boa. Serei eu só o pretexto? Penso que terás visto em mim aquilo que desejaste ser.
Tens uma forma cadenciada de atacar, seduzindo-me cortesmente para o teu ninho de intrigas e traições, fazendo-me acreditar num passado que foi sempre só meu. Quando me tens, bem presa entre na tua teia, sibilas palavras pontiagudas e fá-lo de com uma voz melíflua, tão delicada que pareces cantar. No sangue derramado, cospes o teu veneno e ficas, recostada, a saborear a contorção do corpo moribundo, amordaçado pelas mãos da vergonha e do constrangimento social. Pensas que assim neutralizas o poder que, distraidamente, emano sobre ti. Eu olho-te, já sem que a íris se me raie dessa estranha espécie de dor que é a desilusão. Olho-te, atentamente, analisando-te sem carinho ou compaixão. Retiro o espinho que deixou a tua passagem e a lágrima seca por não haver rio por onde correr. Já em ti vejo pingar o ácido que trazes na língua, percorrendo-te a alma de calafrios. Aliviou-te o que disseste, o que fizeste? Permite-me ousar dizer que não. Vejo-o no teu sorriso macilento, ainda que o olhar continue a manter aquele rasgo viperino que, por descuido, se pode confundir com vitalidade. Para alguém tão inteligente até que demoraste a perceber que o que te intimida não é a minha presença, mas a ausência dela em ti. Assim, serei sempre o que nunca conseguiste ser, enquanto tu te aninhas na tua mediocridade. Desculpa-me a sinceridade, para hipócrita já basta essa dança de cortesias que representas tão bem.
Tens o jogo na mesa, as mangas arregaçadas, como sempre estiveram. O meu ás é, precisamente, a despretensão de querer ditar as regras. Vou continuar a aceitar os teus falsos dizeres e os teus truques sujos e a ignorar o brilho malicioso acautelando-te os passos. Não quero saber o quanto de prazer tiras disso se, para me magoares, precisas que eu te deixe. Já houve dias em que bebi sofregamente as palavras da tua boca, em que arrisquei deixar-te entrar. Agora a porta está fechada, para ti há só restos ou nada. Nunca poderei ser a ponte para a tua felicidade. Nunca, debaixo dos teus pés, te farei uma pessoa melhor. Tenta aprendê-lo por ti, o quanto antes. Para mim, és apenas um ser abandonado à sua própria humilhação, um pedaço desfigurado daquilo que pudeste ser. Compreende que sugares a seiva que corre sob a minha pele não reinventará a tua. Não sou um obstáculo, tão só uma realidade com a qual tens que saber viver. Se para ti isso é demais, minha querida, já não é um problema meu. Para mim, chega de enredos e de mentiras. Não quero fazer da minha vida um teatro. Deixa-te de erguer moinhos de vento, um dia já te quis tão bem… Tens o segredo do carisma por entre as mãos, mas ele vai-te escorrendo pelos dedos em cada manhã que escolhes o caminho mais fácil. A ambição, a sede interminável de monopolizar a vida dos outros, cegou-te os olhos para o essencial. Procura-o em ti. O meu papel na tua vida acabou por aqui.
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11:59 a.m.
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terça-feira, novembro 14, 2006
Pequenas gotas de cristal
Pérolas encobertas nuns lábios apertados.
Quem lhes escrevesse poemas,
Quem lutasse e enlouquecesse por elas.
Houve quem morresse por as acreditar.
Na sua eterna juventude de seixos rebolando pelos séculos, as palavras conservam essa beleza ousada que inebria loucos e poetas, umas vezes cruel, outras doce, sempre capaz de render uma vida à devoção. Se me perguntassem se as amo, diria que talvez tenham sido a minha verdadeira e insolúvel paixão. Se me perguntassem se viveria sem elas, perguntaria de volta se é possível viver sem alma. Talvez seja, como um junco flutuando despido de vontade ao sabor dos caprichos do vento. Mas, em mim, as palavras fazem vibrar as cordas enferrujadas das emoções. Gosto de ficar de olhos fechados, sentindo-as escorrem-me como beijos pelas curvas e recantos das recordações, de correr atrás delas, rindo e desesperando. Faço-as acontecer, um poder que não é só meu. Há nelas uma qualquer vontade de nascer. Quando é hora, desprendem-se do carnal espectro da minha mortalidade e pingam sobre o papel, deixando para trás apenas aquele perfume quase imperceptível a jasmim dos sonhos que nos acordam à noite e se confundem com a realidade. É inevitável pensar nelas, revivê-las, reinventá-las, amá-las até à inconsciência. Ter sobre elas um insensato sentimento de posse, cunhá-las como impressão digital. Rodeá-las de segredos e chaves secretas, códigos complexos e enigmas indecifráveis, trancá-las sob a sombra obscura dos sentimentos jamais confessados. Para que nunca sejam de ninguém tanto como minhas. É nelas que se liberta a minha ténue humanidade para que eu, quando, como folha estaladiça, me despedaçar sob o peso inevitável dos anos, seja fada saltitando a minha derradeira essência por estas linhas.
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12:56 p.m.
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domingo, novembro 12, 2006
Diz-se por aí...
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5:20 p.m.
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domingo, outubro 01, 2006
Minha pequenina
Fotografia em www.fotolog.com/vanish_ladies
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3:41 p.m.
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segunda-feira, setembro 25, 2006
Não partas
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sábado, setembro 23, 2006
Regresso
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6:14 p.m.
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quarta-feira, setembro 13, 2006
Quatro minutos
Fotografia em www.pages.globetrotter.net/banmona/images/yoga
Hoje aprendi que os mantras da yoga são muito mais do que gestos graciosos que, reflectidos no espelho, enchem o nosso ego de orgulho, mais do que cada gota de suor a lembrar-nos que seremos mais magros, mais elegantes, mais atraentes... Hoje aprendi que os limites do nosso corpo são muito mais acessíveis do que os da mente. Pensamos que somos fortes de cada vez que resistimos às tentações da preguiça, de um doce, mas afinal estamos só a obedecer às pressões da sociedade, marionetas agindo na doce ilusão de viver. À alma, essa que permanece muda e cega perante os holofotes do mundo, não temos acesso. Brilhamos pelo sorriso radiante, pelo olhar magnético, pelas roupas da moda... Mas quantas vezes conseguimos atrair uma atenção genuína por aquilo que temos para dizer, que podemos ensinar?
A yoga, não aquela praticada nos ginásios de luxo ao ritmo dos últimos sucessos do hip hop, a verdadeira yoga, despretensiosa, despojada de colchões topo de gama e luzes que disfarçam as estrias, a yoga pura e dura, dos silêncios intermináveis, dos gestos que importam pelo que são e não pelo que parecem... Essa yoga ensina-nos a persistência de procurar chegar ao fundo de nós mesmos, ao âmago das correntes que nos amordaçam, à origem dos nossos medos, àquilo que efectivamente somos. Assim, sem mais ornamentos.
Quatro minutos... Foram só quatro minutos... Que me pareceram uma eternidade. Só porque nesta sociedade não se ensina ninguém a estar sozinho consigo mesmo. Digo sozinho, não só. Não importa quantas pessoas estavam à minha volta, não havia música, nem televisões, nem computadores ou quaisquer outros gadgets para me distrair... Não havia sequer uma pessoa a passar, uma rua para observar, um semáforo a piscar que me prendesse a atenção. De olhos fechados, estava finalmente diante de mim mesma, enclausurada num momento que sempre evitei. Não levitei, não foi prazer o que senti. Primeiro ruído, um ruído ensurdecedor. Depois toda uma gama de pensamentos disparatados, libertadores, como se todo o “lixo” que venho acumulando no baú escuro do meu cérebro tivesse encontrado uma saída. Ultrapassei o medo do desconhecido, do silêncio e da escuridão que pensava conhecer. De repente, já não sentia o meu corpo, tudo se passava a um nível que conscientemente não dominava, simplesmente assistia ao desenrolar dos meus diálogos calados, apalpando os terrenos novos do meu ser, chegando a planícies desconhecidas de verdades que nunca antes se haviam revelado perante os meus olhos demasiado presos às cores do mundo. Quatro minutos. E tudo era novo neste sítio onde tinha chegado. Tudo o que eu tinha aprendido sobre reflexão, pairando vestida de branco diante de uma janela banhada de luz, havia-se quebrado naquele momento, mas valia tão mais saber agora o gosto sincero das minhas entranhas, sentir-lhe o sabor a sangue e a lágrimas, a risos e suspiros...
Como em tudo na vida, o caminho está cheio de pedras e dói, descer o abismo profundo, olhar o silêncio nos olhos e, com um suspiro profundo de satisfação, deixarmo-nos afundar nos pensamentos que, suavemente, nos deslizam pela mente finalmente vazia das impurezas de um mundo que não sabe quem somos.
Quatro minutos... E tu, sabes quem és?
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1:38 a.m.
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segunda-feira, setembro 11, 2006
Crush
Falar sobre amor e ódio, sobre medo e racismo, sobre injustiça e vingança... Falar sobre tudo isso é dizer mundo. O mundo que gira para cada um de nós, entretecendo, quase sem nos darmos por isso, o nosso destino com tantos outros que se cruzam no nosso caminho, por vezes estrelas cadentes perante os nossos olhos mal habituados à escuridão do céu, outras tantas tatuagens que permanecem alheias ao passar do tempo. Atiramos gestos irreflectidamente, como beijos ou como pedras, e nunca sabemos onde vão cair e o estrago que farão. Por vezes, distraidamente, mudamos o ser de alguém num único momento, irrepetível. Só quando soubermos isso, perceberemos que temos o mundo nas mãos. Somos pedrinhas lançadas ao rio, tecendo instantes nas pequenas ou grandes ondas que formamos ao nosso redor, espelhando nelas a nossa alma. No silêncio de cada passo, deixamos pegadas nas vidas que nos rodeiam e o que escrevemos será um dia a recordação que deixaremos para trás. Somos fontes de energia a transbordar, produtos da sociedade e dela absorvemos o cansaço e as frustrações, o altruísmo e a solidariedade. Então que sejamos aquilo que desejamos que os outros sejam para nós.
Algo neste filme sobre a vida no seu estado mais puro me lembra “Favores em Cadeia”, a repercussão impensável de cada uma das nossas atitudes, como um dominó interminável que afecta até o mais longínquo dos seres, ligado a nós por um cordão invisível de afinidades. Gosto assim do dramatismo impudorado de uma realidade que se sabe cruel, mas ao mesmo tempo tão doce, quando a ternura, o amor ou a honestidade encontram o seu lugar num mundo esquecido de amar. No fundo, a primeira frase será sempre a mais importante... O mais doloroso é que todos sentimos o peso da solidão, tão colado aos nossos ombros que colidimos, colidimos a todo o momento, pelo prazer do toque, para nos sentirmos humanos. Em todos nós há um muro à espera de ser derrubado, às vezes basta um olhar, outras vezes é preciso força de leão para levantar uma pessoa das sombras. Mas todos nós - todos, sem excepção - esperamos que uma mão se estenda, que um sorriso se abra e nos mostre que conseguimos ser pessoas melhores todos os dias.
Vê a pessoa pequena e insegura em mim, em cada um, para além do orgulho e da arrogância que me gelaram no rosto. Vê o quanto preciso da tua paciência, da tua compreensão. Não julgues, nós somos as circunstâncias que nos moldaram e tu não sabes como é ser eu. Pensa em como sabe bem o sorriso de um desconhecido na rua, quando alguém que vês todos os dias e mal conheces te tece um elogio ou desculpa os teus erros e te recebe com um abraço sincero. Agora concentra-te na sensação de bem-estar que te envolve e imagina o bem que instantaneamente desejas fazer a essa pessoa. Pensa em como seria bom se isso estivesse sempre a acontecer. Estamos todos ligados, como uma cadeia de peças tocadas pelo vento... O primeiro a cair, arrastará consigo os outros, mas, se nos mantivermos fortes e unidos, seremos uma barreira perante a intempérie. Chama-me sonhadora, eu acredito num mundo melhor.
Vamos colidir, encetar duelos de flores. Sejamos espelhos do que nos deslumbra e enterremos na gaveta dos desperdícios aquilo que nos magoa. Façamos por semear um sorriso em cada dia. Irradiemos luz, por todos os poros, como uma borboleta colorida lançando sonhos. Podemos mais do que algum dia saberemos. Arrisca experimentar...
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11:45 p.m.
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domingo, agosto 27, 2006
Portugal
Assim que terminam as competições desportivas, encerram com elas o patriotismo exaltado que une um povo que passa grande parte do seu tempo a criticar aquilo que apelidam de “o sistema”. Pergunto-me porquê calar num permanente inconformismo desprovido de acção o orgulho nacionalista que secretamente germina em cada português. Não importa o quão vertiginosamente desça a economia, que a crença nos políticos se vá deteriorando com o passar dos anos e o assolar do fenómeno da globalização... Cada um de nós continua a transportar, oculto sob do ar desiludido, um amor tão secreto quanto incondicional pelo belo país “à beira mar plantado”. É ver, se um estrangeiro elogia Portugal, o brilho no olhar trair o encolher de ombros e o suspiro pesaroso do português, que assim se pretende humilde.
Mas hoje eu vou enfrentar esta insensata tradição, vou deixar as queixas de lado e assumir o prazer de ser parte da nação mais ocidental da velha Europa.
Hoje vou falar de um país que tem a cor da terra e sabe a mar; vou falar das rugas que, nas caras dos mais velhos, contam estórias de trabalho duro e fome; vou contar a beleza das mulheres, que sacodem as formas da vida nas suas ancas latinas; vou dizer como é ainda ter um céu estrelado sobre a cabeça e adormecer com a janela aberta, certa de que o meu sono não será perturbado por nenhum intruso com más intenções.
Hoje vou agradecer o mar que inunda os meus olhos, ora fustigando a costa com a força das vagas que vêm do norte, ora acariciando-a com a ternura mansa do mediterrâneo; vou abrir os braços para o céu de um azul cristalino e esperar que ele se pinte de cinzento, porque neste meu cantinho nenhuma estação do ano é esquecida. Os passos que hoje desenho na areia dourada e escaldante, com o cheiro a flores exóticas colado às narinas, amanhã estarão ladeados de folhas estaladiças de cores berrantes, como se tivessem sido tiradas da paleta de Van Gogh; mais tarde, serão moldes que as crianças atirarão umas às outras em felizes guerras de neve, para a seguir se tornarem ninhos que abrigam o renascer do mundo, das plantas e das pequenas criaturas. O prazer de despir as roupas e os preconceitos e dançar na praia até ao nascer do sol só é intenso porque eu sei que não tardarei a passar tardes no sofá, munida com dezenas de filmes, uma manta e chocolate quente, enquanto, através da janela, vejo chover deliciosamente lá fora. Porque para os tugas é tudo na medida certa.
É na medida certa o verde que salpica os montes, subindo abruptamente até às nuvens alvas; o cinza dos braços de água que serpenteiam até à foz; o azul profundo, agreste, do mar do norte; o laranja melancólico do doce Alentejo e o dourado cheio de vida das areias do sul. É na medida certa a aldeia e a cidade, convivendo pacificamente, respeitando os tempos e os silêncios uma da outra. Porque cada um de nós traz em si o cheiro de terra molhada, as mãos ásperas do campo, os sinais de um passado dividido entre as aventuras no oceano imenso e desconhecido e os braços robustecidos pelos caminhos de pó e as enxadas que alimentavam os sonhos megalómanos de alguns. Porque temos este sangue quente a fervilhar-nos nas veias há muitos, muitos séculos.
Orgulho-me até do que não gosto, dos olhares de uma nostalgia dramática, carregando o peso de uma vida de sonhos possíveis e pés assentes no chão, sob a escuridão cerrada das roupas. Orgulho-me do fado e de dizermos “saudade”, do que soubemos perder, porque nunca fora nosso. Orgulho-me de termos ousado sonhar, de termos enfrentado o horizonte com a coragem de quem se sabe capaz de olhar nos olhos os próprios medos. Orgulho-me do carácter simples e pacífico das nossas gentes, sempre pronto a ajudar. Orgulho-me de ser portuguesa - ainda que tantas vezes o negue - até ao arrepio, dos cabelos castanhos, dos olhos escuros, do sotaque. Orgulho-me das tascas e dos petiscos típicos que fazem a delícia dos ingleses, da intensidade poética da língua, dos mitos e das lendas, das trágicas estórias de amor e traição, das cidades, monumentos desprezados por olhares indiferentes. Orgulho-me, mas não digam nada... Não faz parte do meu ser português admiti-lo.
Por isso me rio quando nos vejo imitarmos tão desajeitadamente as modas internacionais e tropeçarmos em estrangeirismos que soam vazios e nos roubam a identidade. Para quê aspirarmos o novo mundo se temos o paraíso entre mãos?
Saibam sonhar, saibam esperar, saibam gostar... Saibam ser portugueses e orgulhem-se disso.
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3:56 a.m.
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domingo, agosto 20, 2006
Uma destas manhãs
Fotografia de autor desconhecido
Queria ser a brisa que te acaricia o rosto, passar descuidadamente, imprudentemente, trazer aromas distantes e memórias incertas. Queria ser volúvel, imprevisível, deixando para trás apenas o sorriso nostálgico do que não se sabe bem se aconteceu. Deixar-me ir, como se os sonhos não me pesassem e o destino fosse construído a cada passo. Ser vento, terra e sol; mudar de cor com as estações, escrever a estória ao contrário e ler-me em cada linha. Reconhecer a poeira dos meus desejos na face oculta deste eclipse lunar, ser fiel só aos princípios que regem a minha terra do nunca e soltar todas as demais amarras. Queria dissolver-me na espuma do mar e deambular, divagar nos gestos e nas palavras e ter morada inexacta onde só quem eu quisesse me pudesse encontrar. Que a areia engolisse cada pegada de uma estória que é só minha e a única coisa que seguisse a minha passagem fosse a lembrança de dias felizes. Ser livre, amar como se nunca tivesse sido magoada, dar como se fosse princesa do meu próprio conto de fadas, entregar-me como se não tivesse nada a perder. Queria riscar ao lado, ver o mundo de pernas para o ar, acreditar que a felicidade é possível. Afagar os meus medos e embalá-los até que deixassem de doer, adormecer as inquietudes para ficar em paz com o momento, domar os desejos que me queimam os lábios, querendo apenas o que está ao alcance do meu olhar. Queria esquecer as leis e as probabilidades e descobrir que o justo é a medida dos meus instintos. Conhecer só de estrelas e marés e dos sentimentos que me habitam. Construir a eternidade com as minhas próprias mãos e deitar-me nela, sabendo que o mundo continuaria a girar, indiferente e tão íntimo aos trilhos que percorri e se foram fechando nas minhas costas.
Mas uma destas manhãs acordei sentindo-me atada aos meus sonhos. Se antes foram asas, horizontes abertos perante os meus olhos deslumbrados, agora tomam conta de mim, ditam-me o caminho, cegos às portas que se vão abrindo, inesperadamente. Sou escrava dos projectos que fiz, de cada dia que vivi, da experiência que carrego comigo, como uma âncora que me prende às metas que tracei, aos desafios que assumi, um memo na palma da minha mão que constantemente me lembra daquilo que me programei para aspirar. Uma destas manhãs descobri que há uma pessoa formada em mim, uma forma de olhar e de sentir e um punhado de fantasmas e de desejos. Descobri, constrangida, que eu sou o maior obstáculo à mudança. Uma destas manhãs percebi porque se teme o desconhecido e se amordaça a liberdade que nos cavalga no peito quando ainda não temos o peso do mundo sobre os ombros. Estremece-se perante a sombra, que se aprendeu a recear. Nada em nós foi feito para aceitar. Há lutas que se travam todos os dias, caladas, nos nossos corações e o caminho que, no fim, tomamos é sempre aquele que nos propusemos tomar. Não se pode ser simples como uma linha, um segmento de vida que expira no fim do traço. Tudo o que eu fui, vi e senti, tudo o que eu temi e sonhei, tudo... Tudo isso caminha ao meu lado, entorpece o meu cérebro com tamanha informação e avisos e superstições. Desnecessários, a vida é tão simples. Mas uma destas manhãs, eu aprendi a não ser linear.
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2:54 a.m.
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segunda-feira, agosto 07, 2006
Longas são as noites...
Em www.fotolog.com/vanish_ladies
Longas são as noites quando o burburinho das ideias me tolda o silêncio dos sonhos. Atordoa-me a vontade de rasgar palavras ao papel, como se assim despedaçasse os pedaços mortos dos pensamentos que não ousei dizer. Há uma qualquer agonia no que escrevo, como se em cada frase doessem os gritos que não dei e tudo o que optei por calar em mim. As palavras que desmaiam nos meus lábios, esquecidas de acontecer, mais tarde ou mais cedo queimam-me o coração. Não sou de rancores, quebro os laços e perdoo o que silenciarei para não mais retomar.
Não gosto de cinzentos, de indecisos, de meios termos. A navegar aprendi a apaziguar as tempestades, mas também a fugir dos céus despidos de estrelas. Já carrego suficientes dúvidas comigo e o desafio de me enfrentar dia para dia; complicações de sobra, diria. Admiro a ira dos ventos e das ondas que nos fustigam, para mim, contudo, apenas almejo o pôr, antiquado e um pouco melancólico, do sol. Ardi em tormentos mil para domesticar as sereias que me cantavam tentações aos ouvidos, agora não vou abdicar da tranquilidade quase outonal da minha travessia. Quero um traço inequívoco na linha das tuas mãos; despedacei todos os esquissos e sombras. Queres fábulas, eu dou-te lendas; mas tudo escrito em papel vegetal porque os trunfos devem estar à vista. É este o meu abrigo, as minhas regras, o meu único pedido. É este...
Longas são as noites quando a vontade não pode mais que o desejo. Um passo separa-me dos corpos abandonados das palavras que não disse, percorro-o, sangrando um pouco, mas ciente de que é esta a minha verdade. Arrisco e não temo, se a compreensão requer coragem. Porque desta vez eu não coleccionarei fantasmas, porque hoje soltarei os monstros debaixo da cama. Esta noite, liberta do peso dos silêncios, respirarei profundamente a tua presença e, feliz, adormecerei...
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terça-feira, julho 25, 2006
Duas vidas
Fotografia de autor desconhecido
Será sempre assim... Amar as raízes e aspirar ao céu? Paradoxais são os desejos que alimentam os meus voos; quero ser dona do meu tempo, segurar as rédeas da minha vida, e ainda ser folha arrastada no vento, pintada pelas cores da estação, leve e estaladiça. Preciso tanto do meu espaço, do meu cheiro nas paredes, de caras conhecidas a sorrirem-me do porta-retratos na estante, como da liberdade de vaguear sem destino, gota anónima num oceano de vidas. Gosto de me reconhecer nos caminhos rotineiros, de antecipar cada passo e essa segurança é uma espécie de redoma que me protege das intempéries de um destino caprichoso. O mesmo destino que me acena do horizonte e me fascina; inebriada pelas promessas de aventura, sucumbo à tentação de me fundir no mundo. Quero uma vida normal, com direito a tudo aquilo que fui programada a ambicionar e, com a mesma intensidade fervorosa, desejo escrever uma história original, por entre a poeira dos caminhos e com o céu estrelado como testemunha. Quero duas vidas para viver!
Perdida por aí, sinto-me tão viva... Dilui-se no sangue a angústia das horas, o tempo passa devagar, como uma carícia. Oiço até o coração da terra palpitar-me no peito, se os meus pés decalcam as pegadas luminosas do universo. Viajar mata a minha fome de mundo. Por um instante, sinto-me cumprir o meu destino, como se eu não pertencesse nem a mim, senão ao mundo. Desejo, com os olhos a brilhar de excitação, cada rua, cada pedaço de mar, banhado de luar e estórias de piratas. Vou saquear as emoções que escondem os rostos alheios, dissecar os mitos de cada sombra que desce sobre a cidade. Quero conhecer, conhecer profundamente; olhar para o mundo mergulhada no seio de cada país, vê-lo como ele é visto lá... Mas só por um instante... E depois partir em busca do meu “el dourado”. Que o prazer não está em chegar, mas na viagem e a única coisa que me poderia prender, levo-a comigo. Sentimentos, transporto-os a tiracolo; o tempo encarrega-se de lhes limar as arestas e eu beijo-lhes as palavras e os silêncios.
Preciso de sentir o chão nos pés. Não nasci para ser de um país só. Almejo os sons, as cores, os cheiros, a arte, a alma de um mundo desconhecido, descobri-lo, possuí-lo, deixar-me apaixonar. Quero aprender línguas diferentes, sentires diferentes, lendas e tradições que moldem a forma como vejo o mundo. A beleza escraviza-me e bebo dela, até me latejar nas têmporas. Rasga-se-me o riso nos lábios, se apreendo um pouco mais da realidade. Realidade que também existe aqui... Aqui, onde estou integrada, onde posso ser eu. Aqui, onde pertenço, onde sou feliz. Eu preciso de duas vidas... Duas vidas para me perder e para me encontrar...
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12:10 a.m.
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quinta-feira, julho 20, 2006
So many words I wish I could say
Fotografia de autor desconhecido
São tantas as coisas que na pressa dos dias, no atropelo das horas, se deixam de dizer...
Dizer, por exemplo:
- Sinto a tua falta.
Às vezes, as palavras pesam. Molhadas de sorrisos abafados, carregando o fardo das saudades e dos desejos, dos medos e das paixões, escondem-se; como se, de repente, o rio que somos deixasse de correr e ficasse, especado, à espera que o leito lhe dissesse para acontecer. Diletantismo medonho este de olhar para o lado e assobiar, fingir que passa, fingir que não existe e viver assim, na ilusão dos segredos calados. Palavras que não são ditas são cadáveres que transportamos nas entranhas, fantasmas que se recusam a ser gente... Ou nada... Mas que sejam ou desistam de ser; não sou de meios termos.
São tantas as coisas que se fingem não sentir. Como se fossem pecado... Um pouco mais, até.
Sentir, por exemplo, que te desiludi.
Olha-me nos olhos e diz-me que eu não fui suficiente... Suficiente disto, suficiente daquilo... E depois engole as tuas palavras, prometo que não vais ter que as repetir. Sou de desafios, da lâmina crua da frontalidade; falsos gestos cansam-me, jogos entediam-me. Por isso, não finjas que não te sentes incomodado. Eu também sinto. Não digas nada, deixa a raiva, o tédio, o medo tomarem conta de ti e, de tanto te possuírem, explodirem num riso fugaz e contagiante. Estou farta de teatros, de farsas, de segundos sentidos. Sê transparente, leal ao que és... Depois do que vi, não me vais assustar. Nem as sombras que pairam nas tuas costas, nem os monstros que escondeste debaixo da cama... Não me vais assustar.
São tantas as coisas que deixamos escorregar-nos entre os dedos.
Tu sabes. Acorda!
O mundo está à tua espera...
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S.
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1:39 a.m.
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on their own











