domingo, agosto 27, 2006

Portugal



Assim que terminam as competições desportivas, encerram com elas o patriotismo exaltado que une um povo que passa grande parte do seu tempo a criticar aquilo que apelidam de “o sistema”. Pergunto-me porquê calar num permanente inconformismo desprovido de acção o orgulho nacionalista que secretamente germina em cada português. Não importa o quão vertiginosamente desça a economia, que a crença nos políticos se vá deteriorando com o passar dos anos e o assolar do fenómeno da globalização... Cada um de nós continua a transportar, oculto sob do ar desiludido, um amor tão secreto quanto incondicional pelo belo país “à beira mar plantado”. É ver, se um estrangeiro elogia Portugal, o brilho no olhar trair o encolher de ombros e o suspiro pesaroso do português, que assim se pretende humilde.

Mas hoje eu vou enfrentar esta insensata tradição, vou deixar as queixas de lado e assumir o prazer de ser parte da nação mais ocidental da velha Europa.

Hoje vou falar de um país que tem a cor da terra e sabe a mar; vou falar das rugas que, nas caras dos mais velhos, contam estórias de trabalho duro e fome; vou contar a beleza das mulheres, que sacodem as formas da vida nas suas ancas latinas; vou dizer como é ainda ter um céu estrelado sobre a cabeça e adormecer com a janela aberta, certa de que o meu sono não será perturbado por nenhum intruso com más intenções.

Hoje vou agradecer o mar que inunda os meus olhos, ora fustigando a costa com a força das vagas que vêm do norte, ora acariciando-a com a ternura mansa do mediterrâneo; vou abrir os braços para o céu de um azul cristalino e esperar que ele se pinte de cinzento, porque neste meu cantinho nenhuma estação do ano é esquecida. Os passos que hoje desenho na areia dourada e escaldante, com o cheiro a flores exóticas colado às narinas, amanhã estarão ladeados de folhas estaladiças de cores berrantes, como se tivessem sido tiradas da paleta de Van Gogh; mais tarde, serão moldes que as crianças atirarão umas às outras em felizes guerras de neve, para a seguir se tornarem ninhos que abrigam o renascer do mundo, das plantas e das pequenas criaturas. O prazer de despir as roupas e os preconceitos e dançar na praia até ao nascer do sol só é intenso porque eu sei que não tardarei a passar tardes no sofá, munida com dezenas de filmes, uma manta e chocolate quente, enquanto, através da janela, vejo chover deliciosamente lá fora. Porque para os tugas é tudo na medida certa.

É na medida certa o verde que salpica os montes, subindo abruptamente até às nuvens alvas; o cinza dos braços de água que serpenteiam até à foz; o azul profundo, agreste, do mar do norte; o laranja melancólico do doce Alentejo e o dourado cheio de vida das areias do sul. É na medida certa a aldeia e a cidade, convivendo pacificamente, respeitando os tempos e os silêncios uma da outra. Porque cada um de nós traz em si o cheiro de terra molhada, as mãos ásperas do campo, os sinais de um passado dividido entre as aventuras no oceano imenso e desconhecido e os braços robustecidos pelos caminhos de pó e as enxadas que alimentavam os sonhos megalómanos de alguns. Porque temos este sangue quente a fervilhar-nos nas veias há muitos, muitos séculos.

Orgulho-me até do que não gosto, dos olhares de uma nostalgia dramática, carregando o peso de uma vida de sonhos possíveis e pés assentes no chão, sob a escuridão cerrada das roupas. Orgulho-me do fado e de dizermos “saudade”, do que soubemos perder, porque nunca fora nosso. Orgulho-me de termos ousado sonhar, de termos enfrentado o horizonte com a coragem de quem se sabe capaz de olhar nos olhos os próprios medos. Orgulho-me do carácter simples e pacífico das nossas gentes, sempre pronto a ajudar. Orgulho-me de ser portuguesa - ainda que tantas vezes o negue - até ao arrepio, dos cabelos castanhos, dos olhos escuros, do sotaque. Orgulho-me das tascas e dos petiscos típicos que fazem a delícia dos ingleses, da intensidade poética da língua, dos mitos e das lendas, das trágicas estórias de amor e traição, das cidades, monumentos desprezados por olhares indiferentes. Orgulho-me, mas não digam nada... Não faz parte do meu ser português admiti-lo.

Por isso me rio quando nos vejo imitarmos tão desajeitadamente as modas internacionais e tropeçarmos em estrangeirismos que soam vazios e nos roubam a identidade. Para quê aspirarmos o novo mundo se temos o paraíso entre mãos?

Saibam sonhar, saibam esperar, saibam gostar... Saibam ser portugueses e orgulhem-se disso.

domingo, agosto 20, 2006

Uma destas manhãs

Fotografia de autor desconhecido

Queria ser a brisa que te acaricia o rosto, passar descuidadamente, imprudentemente, trazer aromas distantes e memórias incertas. Queria ser volúvel, imprevisível, deixando para trás apenas o sorriso nostálgico do que não se sabe bem se aconteceu. Deixar-me ir, como se os sonhos não me pesassem e o destino fosse construído a cada passo. Ser vento, terra e sol; mudar de cor com as estações, escrever a estória ao contrário e ler-me em cada linha. Reconhecer a poeira dos meus desejos na face oculta deste eclipse lunar, ser fiel só aos princípios que regem a minha terra do nunca e soltar todas as demais amarras. Queria dissolver-me na espuma do mar e deambular, divagar nos gestos e nas palavras e ter morada inexacta onde só quem eu quisesse me pudesse encontrar. Que a areia engolisse cada pegada de uma estória que é só minha e a única coisa que seguisse a minha passagem fosse a lembrança de dias felizes. Ser livre, amar como se nunca tivesse sido magoada, dar como se fosse princesa do meu próprio conto de fadas, entregar-me como se não tivesse nada a perder. Queria riscar ao lado, ver o mundo de pernas para o ar, acreditar que a felicidade é possível. Afagar os meus medos e embalá-los até que deixassem de doer, adormecer as inquietudes para ficar em paz com o momento, domar os desejos que me queimam os lábios, querendo apenas o que está ao alcance do meu olhar. Queria esquecer as leis e as probabilidades e descobrir que o justo é a medida dos meus instintos. Conhecer só de estrelas e marés e dos sentimentos que me habitam. Construir a eternidade com as minhas próprias mãos e deitar-me nela, sabendo que o mundo continuaria a girar, indiferente e tão íntimo aos trilhos que percorri e se foram fechando nas minhas costas.
Mas uma destas manhãs acordei sentindo-me atada aos meus sonhos. Se antes foram asas, horizontes abertos perante os meus olhos deslumbrados, agora tomam conta de mim, ditam-me o caminho, cegos às portas que se vão abrindo, inesperadamente. Sou escrava dos projectos que fiz, de cada dia que vivi, da experiência que carrego comigo, como uma âncora que me prende às metas que tracei, aos desafios que assumi, um memo na palma da minha mão que constantemente me lembra daquilo que me programei para aspirar. Uma destas manhãs descobri que há uma pessoa formada em mim, uma forma de olhar e de sentir e um punhado de fantasmas e de desejos. Descobri, constrangida, que eu sou o maior obstáculo à mudança. Uma destas manhãs percebi porque se teme o desconhecido e se amordaça a liberdade que nos cavalga no peito quando ainda não temos o peso do mundo sobre os ombros. Estremece-se perante a sombra, que se aprendeu a recear. Nada em nós foi feito para aceitar. Há lutas que se travam todos os dias, caladas, nos nossos corações e o caminho que, no fim, tomamos é sempre aquele que nos propusemos tomar. Não se pode ser simples como uma linha, um segmento de vida que expira no fim do traço. Tudo o que eu fui, vi e senti, tudo o que eu temi e sonhei, tudo... Tudo isso caminha ao meu lado, entorpece o meu cérebro com tamanha informação e avisos e superstições. Desnecessários, a vida é tão simples. Mas uma destas manhãs, eu aprendi a não ser linear.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Longas são as noites...

Em www.fotolog.com/vanish_ladies


Longas são as noites quando o burburinho das ideias me tolda o silêncio dos sonhos. Atordoa-me a vontade de rasgar palavras ao papel, como se assim despedaçasse os pedaços mortos dos pensamentos que não ousei dizer. Há uma qualquer agonia no que escrevo, como se em cada frase doessem os gritos que não dei e tudo o que optei por calar em mim. As palavras que desmaiam nos meus lábios, esquecidas de acontecer, mais tarde ou mais cedo queimam-me o coração. Não sou de rancores, quebro os laços e perdoo o que silenciarei para não mais retomar.

Não gosto de cinzentos, de indecisos, de meios termos. A navegar aprendi a apaziguar as tempestades, mas também a fugir dos céus despidos de estrelas. Já carrego suficientes dúvidas comigo e o desafio de me enfrentar dia para dia; complicações de sobra, diria. Admiro a ira dos ventos e das ondas que nos fustigam, para mim, contudo, apenas almejo o pôr, antiquado e um pouco melancólico, do sol. Ardi em tormentos mil para domesticar as sereias que me cantavam tentações aos ouvidos, agora não vou abdicar da tranquilidade quase outonal da minha travessia. Quero um traço inequívoco na linha das tuas mãos; despedacei todos os esquissos e sombras. Queres fábulas, eu dou-te lendas; mas tudo escrito em papel vegetal porque os trunfos devem estar à vista. É este o meu abrigo, as minhas regras, o meu único pedido. É este...

Longas são as noites quando a vontade não pode mais que o desejo. Um passo separa-me dos corpos abandonados das palavras que não disse, percorro-o, sangrando um pouco, mas ciente de que é esta a minha verdade. Arrisco e não temo, se a compreensão requer coragem. Porque desta vez eu não coleccionarei fantasmas, porque hoje soltarei os monstros debaixo da cama. Esta noite, liberta do peso dos silêncios, respirarei profundamente a tua presença e, feliz, adormecerei...

terça-feira, julho 25, 2006

Duas vidas

Fotografia de autor desconhecido


Será sempre assim... Amar as raízes e aspirar ao céu? Paradoxais são os desejos que alimentam os meus voos; quero ser dona do meu tempo, segurar as rédeas da minha vida, e ainda ser folha arrastada no vento, pintada pelas cores da estação, leve e estaladiça. Preciso tanto do meu espaço, do meu cheiro nas paredes, de caras conhecidas a sorrirem-me do porta-retratos na estante, como da liberdade de vaguear sem destino, gota anónima num oceano de vidas. Gosto de me reconhecer nos caminhos rotineiros, de antecipar cada passo e essa segurança é uma espécie de redoma que me protege das intempéries de um destino caprichoso. O mesmo destino que me acena do horizonte e me fascina; inebriada pelas promessas de aventura, sucumbo à tentação de me fundir no mundo. Quero uma vida normal, com direito a tudo aquilo que fui programada a ambicionar e, com a mesma intensidade fervorosa, desejo escrever uma história original, por entre a poeira dos caminhos e com o céu estrelado como testemunha. Quero duas vidas para viver!
Perdida por aí, sinto-me tão viva... Dilui-se no sangue a angústia das horas, o tempo passa devagar, como uma carícia. Oiço até o coração da terra palpitar-me no peito, se os meus pés decalcam as pegadas luminosas do universo. Viajar mata a minha fome de mundo. Por um instante, sinto-me cumprir o meu destino, como se eu não pertencesse nem a mim, senão ao mundo. Desejo, com os olhos a brilhar de excitação, cada rua, cada pedaço de mar, banhado de luar e estórias de piratas. Vou saquear as emoções que escondem os rostos alheios, dissecar os mitos de cada sombra que desce sobre a cidade. Quero conhecer, conhecer profundamente; olhar para o mundo mergulhada no seio de cada país, vê-lo como ele é visto lá... Mas só por um instante... E depois partir em busca do meu “el dourado”. Que o prazer não está em chegar, mas na viagem e a única coisa que me poderia prender, levo-a comigo. Sentimentos, transporto-os a tiracolo; o tempo encarrega-se de lhes limar as arestas e eu beijo-lhes as palavras e os silêncios.
Preciso de sentir o chão nos pés. Não nasci para ser de um país só. Almejo os sons, as cores, os cheiros, a arte, a alma de um mundo desconhecido, descobri-lo, possuí-lo, deixar-me apaixonar. Quero aprender línguas diferentes, sentires diferentes, lendas e tradições que moldem a forma como vejo o mundo. A beleza escraviza-me e bebo dela, até me latejar nas têmporas. Rasga-se-me o riso nos lábios, se apreendo um pouco mais da realidade. Realidade que também existe aqui... Aqui, onde estou integrada, onde posso ser eu. Aqui, onde pertenço, onde sou feliz. Eu preciso de duas vidas... Duas vidas para me perder e para me encontrar...

quinta-feira, julho 20, 2006

So many words I wish I could say

Fotografia de autor desconhecido


São tantas as coisas que na pressa dos dias, no atropelo das horas, se deixam de dizer...

Dizer, por exemplo:
- Sinto a tua falta.

Às vezes, as palavras pesam. Molhadas de sorrisos abafados, carregando o fardo das saudades e dos desejos, dos medos e das paixões, escondem-se; como se, de repente, o rio que somos deixasse de correr e ficasse, especado, à espera que o leito lhe dissesse para acontecer. Diletantismo medonho este de olhar para o lado e assobiar, fingir que passa, fingir que não existe e viver assim, na ilusão dos segredos calados. Palavras que não são ditas são cadáveres que transportamos nas entranhas, fantasmas que se recusam a ser gente... Ou nada... Mas que sejam ou desistam de ser; não sou de meios termos.

São tantas as coisas que se fingem não sentir. Como se fossem pecado... Um pouco mais, até.

Sentir, por exemplo, que te desiludi.

Olha-me nos olhos e diz-me que eu não fui suficiente... Suficiente disto, suficiente daquilo... E depois engole as tuas palavras, prometo que não vais ter que as repetir. Sou de desafios, da lâmina crua da frontalidade; falsos gestos cansam-me, jogos entediam-me. Por isso, não finjas que não te sentes incomodado. Eu também sinto. Não digas nada, deixa a raiva, o tédio, o medo tomarem conta de ti e, de tanto te possuírem, explodirem num riso fugaz e contagiante. Estou farta de teatros, de farsas, de segundos sentidos. Sê transparente, leal ao que és... Depois do que vi, não me vais assustar. Nem as sombras que pairam nas tuas costas, nem os monstros que escondeste debaixo da cama... Não me vais assustar.

São tantas as coisas que deixamos escorregar-nos entre os dedos.

Tu sabes. Acorda!

O mundo está à tua espera...

quinta-feira, junho 29, 2006

Liberdade

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!

Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

Este poema faz parte da minha infância... Tanto que praguejei e espernei... Às vezes, acho mesmo que só o declamavas para me ver irritada... E depois resolvermos a nossa pequena desavença com uma doce luta de almofadas (pobre de quem não tem memórias assim). Demorei tanto tempo para o perceber... Mas agora sempre que o leio oiço a tua voz, grave, ritmada, cheia de vida. Como poderíamos saber que seria este o caminho? Que um dia eu saberia de finanças e só então perceberia a inutilidade de tanto conhecimento, que me entedia, que me preenche, que em mim se transforma em mil outras coisas. Tinhas razão, o que importa é o sol e a lua e as flores e essas crianças que correm à minha volta e me deixam louca... Que têm a minha afeição mais pura. É tão intenso o sabor da liberdade quando é conquistada... Tão terno recordar as nossas tardes... Só queria saber dizer-te como tenho saudades tuas...

domingo, junho 25, 2006

Obrigada por serem luz...

Fotografia de Gonçalo Almeida

Às vezes, a vida dói. São tantos os momentos em que o medo faz descer a sombra entristecida da noite sobre nós... Às vezes, o olhar trai a subtil nostalgia de poder pouco mais do que nada para agarrar a réstia de esperança que nos escorrega por entre os dedos. É nessas alturas que percebemos que temos que entregar o nosso destino e confiar... e acreditar que cada obstáculo no nosso caminho nos aproxima um bocadinho mais do céu.

Para mim, o céu é todo o carinho dos que ficam, dos que não têm medo de olhar a minha dor nos olhos, dos que não se escondem atrás de frases feitas ou de optimismos de plástico, daqueles que me abraçaram e até dos que não disseram nada mas me fizeram sentir que eram âncoras que me prendiam à terra... Porque de vocês eu orgulho-me e por vocês vale sempre a pena lutar.

Faz-me sorrir, por mais triste que o meu sorriso seja, ver as estrelas que não deixam a escuridão roubar-me lágrimas à luz. É de coragem, de muita coragem, abdicar das próprias dores para ser um lugar seguro para o coração assustado de alguém. Se houve quem tivesse fingido não perceber a presença incómoda da tristeza ou quem fugisse, porque desta vez era eu que precisava que me insuflassem vida, também houve quem ficasse, quem não deixasse que me sentisse perdida, quem me mostrasse que a força está em mim e em todos os braços que deixaram a sua própria vida de lado para me virem erguer.

Não posso deixar de agradecer ao mundo, à vida, a Deus ou ao destino... Que eu fiz, que escolhi, que o universo quis para mim... Seja qual for a estrela que reja os meus passos, não posso deixar de agradecer por viver no seio de tanto amor e de tanta coragem. Que estes gestos sejam para mim um exemplo e que nunca eu deixe que os meus próprios problemas me fechem os olhos e me impeçam de estar livre para ser ponte para um lugar melhor.

Obrigada por haver tanta beleza à minha volta, tantos olhos carregados de genuína emoção, tantos pensamentos vestidos de uma preocupação autêntica. Obrigada por ter em casa o melhor exemplo de amor no seu estado mais puro e verdadeiro. Obrigada por haver quem pense em mim ao acordar, por haver quem fique ao meu lado quando o peso do caminho se torna maior do que eu, quem me estenda a mão quando a solidão espreita na esquina dos meus medos.

Obrigada por serem luz para mim...



sexta-feira, junho 23, 2006

A irmandade das dartas

I remember when, I remember, I remember when
I lost my mind
There was something so pleasant about that place
Even your emotions had an echo
In so much space

Maybe I'm crazy
Maybe you're crazy
Maybe we're crazy
Probably

And I hope that you are having the time of your life...

Crazy - Gnarls Barkley

Quando a manhã não é suficiente para iluminar o meu sorriso, vocês roubam raios ao sol e preenchem todo o meu vazio com a vossa presença radiante. Quando as sombras arrastam os sentimentos aos tropeções, vocês dão-me asas e levam-me para um lugar seguro. Não se escondem da tristeza, não fingem que ela não nos incomoda; acolhem-na no nosso seio e acarinham-na, até que deixe de chover, e então espantam-na com uma mão cheia de gargalhadas. Sim, as vossas gargalhadas... São pérolas de orvalho que refrescam os meus dias, que têm o poder divino de curar. Em vocês, eu saro, eu cresço, eu sou melhor...
Porque nós somos mais do que quatro pessoas unidas pela amizade; nós somos uma verdadeira irmandade. No meu egoísta individualismo, nunca pensei que pudesse estar com alguém todos os dias e ter sempre tanto para dizer e ter sempre tantas saudades e vontade de estar perto... Mas convosco é possível, ao vosso lado todo o tempo escasseia, porque no mundo há um espaço que é só nosso e as nuvens e o sol e as pessoas... Nada o pode perturbar.
O que há de deslumbrante nos nossos momentos é que cada uma de nós, tão diferente da outra, é aquilo que intrinsecamente é, sem medo ou qualquer constangimento. É esse o segredo que trespassa o nosso mundo e que nunca ninguém soube entender, mas que nos une com um laço tão forte que vai para além do tempo e da distância. Nunca há um dedo a apontar, uma atitude a julgar ou aquele risinho que ironiza aquilo que se pensa ser rídiculo; há sempre dois braços abertos, para o bem e para o mal, e um sorriso a transbordar de todos os sentimentos verdadeiros que um ser humano pode albergar.
Vocês são lindas, tão lindas que cada dia vale a pena acordar com um sorriso por saber que vos tenho na minha vida. E pode o mundo desabar, pode o riso rebentar... Vocês estão aí. E juntas vamos dançar a alegria de estarmos vivas, juntas vamos chorar porque o mundo acaba sempre por nos magoar, mas estamos juntas... Profundamente juntas...
Obrigada por tornarem a minha vida tão mais feliz...
* Darta Kitty *

sábado, junho 17, 2006

quarta-feira, junho 14, 2006

Tudo o que te quero dizer...


Não me interessa o que fazes na vida. Quero saber o que anseias e se tens coragem de sonhar com a realização desse anseio.
Não me interessa que idade tens. Quero saber se tens coragem de fazer figuras tolas em busca do amor, dos teus sonhos, da aventura de estar vivo.
Não me interessa quais os planetas que regem a tua lua. Quero saber se tocaste o âmago da tua própria dor, se tens estado aberto às traições da vida ou se te fechaste com medo de sofrer novamente. Quero saber se consegues sentar-te na presença da dor, tua ou minha, sem tentares escondê-la, esmorecê-la ou remendá-la.
Quero saber se consegues estar na presença da alegria, tua ou minha, se consegues dançar loucamente e deixar o êxtase inundar-te, da ponta dos pés à cabeça, sem dizer «tem cuidado, sê realista, lembra-te das limitações do ser humano».
Não me interessa se a história que me contas é verdadeira. Quero saber se és capaz de desiludir uma pessoa para seres verdadeiro para contigo próprio; se consegues suportar a acusação de traição e não traíres a tua alma, se consegues despojar-te de fé e ser de confiança.
Quero saber se consegues ver a beleza, mesmo quando não é bonita, todos os dias, e se consegues alimentar a tua vida com a sua presença.
Quero saber se consegues viver com o fracasso, teu e meu, e ainda assim abeirar-te do lago e gritar à Lua Cheia de prata: «Sim!»
Não me interessa saber onde vives ou quanto dinheiro tens. Quero saber se consegues levantar-te, depois de uma noite de dor e desespero, cansado e dorido até ao âmago, e fazer o que for preciso para alimentar os teus filhos.
Não me interessa quem conheces ou como aqui chegaste. Quero saber se enfrentarás as chamas comigo, sem dares um passo atrás.
Não me interessa onde, o quê ou com quem estudaste. Quero saber o que te sustenta, por dentro, quando tudo o resto desmorona.
Quero saber se consegues estar a sós contigo mesmo e se verdadeiramente aprecias a tua companhia nos momentos vazios.

__ Sonhador da Montanha Oriah, Ancião Índio

sexta-feira, junho 09, 2006

No fim, está tudo bem...

Se ainda não está tudo bem...



É porque ainda não chegou o fim.

segunda-feira, junho 05, 2006

Still [nine]teen

E de repente eis que chega a inevitável passagem para o mundo dos adultos. Não, não é uma perspectiva dramática. Acaba-se o teen a finalizar os nossos actos, a desculpar os nossos erros, a preencher a nossa imaturidade. De um momento para o outro apercebemo-nos das expectativas com que a sociedade nos constrange e que não nos quer ver frustrar. Esvanece-se em nuvens fugidias de passado o tempo das birras e do conhecimento imprudente do mundo. E para mim... O que será que me espera agora? Serão estes os «loucos anos 20»? Será o desejado encontro comigo mesma, com aquilo que sou e que passei anos na arriscada demanda de descobrir?
Se chegou ao fim a idade dos porquês, porque é que ainda pontuo a minha vida com interrogações? E se eu não quiser crescer, se quiser continuar à procura da terra no nunca? As dúvidas multiplicam-se nas encruzilhadas, como se nada tivesse sido feito para ser compreendido. Ou serei eu, eternamente dividida entre o que sinto e o quero, o que acredito e o que espero, o que amo e o que odeio e tudo o que flutua nesse entremeio e não sei definir? Serei eu, almejando um impossível infinitamente próximo, desacreditando as certezas que vou construindo apenas pelo prazer de recomeçar a procurar? Talvez eu só não queira chegar... E o que é que isso tem de tão errado?
Para trás fica a mágica consciencialização do mundo, como que abrindo os olhos lentamente enquanto nos apercebemos do universo que nos rodeia, tocando os limites da vida, os extremos da felicidade e do desespero e, por fim, concluindo que na nossa existência humana há tanto de divino como de animal. Dói mudar de pele, ficar a ver os atropelos do dia-a-dia dilacerarem-nos a inocência, abandonar a redoma da infância para nos lançarmos num mundo que não nos pode prometer nenhuma segurança... Demora e dói estarmos em nós. E, por outro lado, é tão doce fundirmo-nos numa existência comum mas que para nós, a cada passo, tem o sabor deliciosamente atraente da novidade...
Só que agora as minhas tempestades serão sobre um chão firme. Agora quererei o curso, um carro, um emprego, uma relação... E se eu não...? Agora apetece-me virar tudo isso ao contrário e continuar à procura de mim! Apetece-me mudar, viajar, fugir.... Agora apetece-me correr e tropeçar e aprender novamente a cair. O meu caminho não está feito, não há passos para eu seguir e eu quero que ele seja à minha maneira. Por isso, deixem-me ser eu. E não me exijam nada, nem respostas, nem futuro, nem o horizonte que eu ainda não quero alcançar. Só se houver mais e mais e mais... Eu quero um pouco mais de adolescência, a inconsciência de não saber, o pecado irascível de querer, um caminho vasto para percorrer. Eu só quero ser eu, intrinsecamente eu e mais nada.

terça-feira, maio 30, 2006

Se te amo...


Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda

segunda-feira, maio 22, 2006

Quem és tu de novo


Quando a janela se fecha
E se transforma num ovo
E se desfazem estilhaços
De céu azul e magenta
O meu olhar tem razões
Que a razão não frequenta
Por favor diz-me quem és tu de novo

Quando o teu cheiro me leva
Às esquinas do vislumbre
E toda a verdade em ti
É coisa incerta e tão vasta
Quem sou eu para negar
Que a tua presença me arrasta...
Quem és tu na imensidão do deslumbre?

As redes são passageiras
Arquitecturas da fuga
De toda a água que corre
De todo o vento que passa
E quando uma teia se rasga
Ergo à lua a minha taça
E vejo nascer no espelho
Mais uma rua

Quando o tecto se escancara
E se confunde com a lua
A apontar-me o caminho
Melhor do que qualquer estrela
Ninguém me faz duvidar
Que foste sempre a mais bela
Por favor diz-me que és alguém de novo...

Jorge Palma

“Quem és” é uma pergunta tão indiscreta quanto traiçoeira e... Será que algum dia me poderás responder? Talvez eu não queira uma resposta. Tu és aquilo que eu vou descobrindo, no intervalo dos risos, aos tropeções, umas vezes confiante, outras insegura... Tu és o que eu vejo em ti, como o reflexo de um lago sem fundo, uma prenda que se desembrulha devagar, saboreando o prazer antecipado da expectativa. Todos nós já nos desiludimos, todos acreditámos naquilo que julgámos ser um céu e no final de contas eram só estilhaços azuis e magenta... Todos guardamos a verdade secreta numa concha esquecida por entre as algas das memórias e todos desejamos a corrente que venha despojar-nos dos corpos mortos, que nos liberte a essência e nos aponte o caminho melhor do que qualquer estrela. Nenhum de nós sabe quem é. Por isso, não respondas. Deixa que o tempo, como o mar, traga para terra os despojos de ti. Eu não vou procurar desenterrar as tuas lendas, nem mergulhar em águas que se podem revoltar... Estou cansada de naufrágios. Não roubo a tua história, aceito os vislumbres que dela me dás e vou construindo uma ideia de ti, com prudência, com a segurança de seres autenticamente tu, porque, se um dia deixar de haver a tua presença, não quero encontrá-la despida de alma. Dou-te a garantia de que vou ver em ti alguém de novo e de mim... aquilo que estiveres disposto a abraçar, a desvendar com a mestria cautelosa de quem descobriu a importância de esperar. Porque nos reinventamos cada dia e somos sempre alguém de novo, é perda de tempo tentarmos prender-nos num perfil, numa imagem, numa definição que nos torna escravos de alguma verdade que não pedimos para integrar. Eu não sei quem és, quem sou... Sei que quero procurar. Não é que isso que verdadeiramente importa?

sábado, maio 13, 2006

Redescobrir a normalidade


Foram tantos os anos em que eu achei que a normalidade era uma doença que eu devia a todo o custo evitar... Tantas vezes me desviei dos padrões e estimulei a diferença em mim, entediando-me com a rotina e amaldiçoando a monotonia. Venerei as loucuras, os saltos no vazio e tudo aquilo que poderia arrancar alguém à multidão e fazê-la brilhar, estrela solitária num céu de diamantes. Mergulhei na história dos Van Goghs e Fernandos Pessoa do Mundo, segui atentamente os passos dos revolucionários, admirei profundamente quem primava pela diferença e fazia os pilares da sociedade estremecer.
Mas agora, depois de virar o mundo ao contrário, dou por mim a redescobrir a normalidade com um estranho prazer. Reencontro-me no caminho de todos os dias e saboreio a alegria de uma vida comum, que para mim já não significa o mesmo que vulgar. Deixo-me dissolver na espuma homogénea da multidão, envolvida pelo conforto do anonimato. A placidez da previsibilidade pela primeira vez não me aterroriza. Aprendo a amar o que me está ao alcance da mão, dou por mim a “desejar impossivelmente o possível”, tomando consciência que construi um abrigo à minha imagem e que não quero sair de lá, não para já. Entendo a beleza da simplicidade, das pessoas que passam por mim e não cativam a minha atenção, das pequenas coisas que estruturam o meu mundo e que eu não conseguia ver por trás das cores berrantes que pintava num horizonte sempre inalcansável.
Porque para deixar a minha alma voar preciso de ter os pés assentes na terra, porque a liberdade começa em mim, porque onde quer que me leve o fascínio estas são as minhas raízes... Quero amar o meu dia-a-dia, deliciar-me com tudo o que sempre esteve por perto, conhecer os voos do meu doce quotidiano sem pretensões de maior, entregar-me aos braços que se abrem sem os olhos turvos de sonhos irrealizáveis e outras quimeras. Só assim posso sentir-me em mim, porque me cansei de buscas infrutíferas. É um sentimento novo, estou embriagada dele. E hoje digo sem medo: dêem-me aquilo que eu posso esperar. Desta vez eu não fugirei... Prometo, eu fico.

sexta-feira, abril 21, 2006

Letting go

Don’t be afraid of letting go...

Há minha volta pressinto a ânsia triste de todos aqueles que se habituaram a ver um rapaz bonito e alegre na televisão e que agora não sabem lidar com o vazio que ele deixou. Francisco Adam partiu. E até eu me sinto incomodada perante a ideia, embora a única familiaridade que tinha com ele era a de ver aquele rosto traquinas aparecer e desaparecer no écran durante uma ou outra sessão de zapping. Não é a perda que me preocupa, como os Expensive Soul dizem na música que - segundo me elucidaram - precedia as suas aparições na novela “falas disso, esquece isso”. As pessoas aproveitam o pretexto para chorar as suas mágoas, lamentam a vida que se esvaiu e que era desconhecida mas que lhes entrava em casa todos os dias através da pequena caixa mágica, fazem disso mote de conversa durante umas semanas e esquecem. Ironicamente, a mesma música continua “pensas que eu vou ficar por cá muito mais tempo, demasiado tarde, por isso aproveita este momento”. Francisco Adam foi uma pequena estrela que se apagou ou que deixámos de ver, mas que vai continuar a arder no coração de quem verdadeiramente o conheceu durante muito tempo. É essa a sua eternidade, a eternidade de todos nós...
O que mais choca em tudo isto é a juventude dele, como uma flor que é colhida quando ainda está a desabrochar. Não estamos preparados para perder alguém nesta altura, não conseguimos conceber que isso possa sequer ser possível. Sei bem a sensação de imortalidade que temos quando somos jovens, como se uma bolha invisível à nossa volta nos protegesse de todos os males do mundo. Eu bebo actimel e isso não impediu que naquela noite eu sentisse a vida escorregar-me por entre os dedos. Passaram 4 meses, mas não esqueço...
Não me parece que seja inconsciência. Simplesmente, a ânsia de abraçar o mundo, de o sorver, de alcançar a plenitude de cada momento é um apelo mais forte do que a prudência, que só o tempo traz. Nada nos acontece porque ainda temos muitos projectos, porque ainda queremos viajar, casar, ter filhos... Ainda pensamos tirar o tal curso de pintura, lutar por aquele trabalho com que sonhamos desde miúdos, comprar uma casa à beira-mar onde envelhecer... E é verdade que esse optimismo nos protege... A maioria das vezes, mas nem sempre.
Posso dizer que renasci, pelo menos é assim que sinto. Por um segundo, pensei que tudo estava perdido e dei-me conta de como amo esta vida. Foi um segundo, uma distracção por excesso de confiança, que paguei com sangue e lágrimas. Mas fui poupada e, de cada vez que fecho olhos e recordo a escuridão que me engoliu naquela noite sem estrelas, sentindo o medo tão entranhado na minha pele, agradeço por ainda estar aqui.
Que a morte do Francisco sirva para vos lembrar da fragilidade da nossa humanidade. Aproveitem o dia, cada dia, não adiem sonhos, não abdiquem do presente em prol de um futuro que é sempre incerto. Mas não se esqueçam, nem por um momento, que a vida é o nosso bem mais precioso e delicado e que por isso devemos protegê-la, mantê-la, cuidar dela. Porque “todos os momentos são brilhantes diamantes”...

terça-feira, abril 18, 2006

Juventude (em nome da Amizade)


Sei de cor cada lugar teu
Atado em mim
A cada lugar meu
Tento entender o rumo
Que a vida nos faz tomar
Tento esquecer a mágoa
Guardar só o que é bom de guardar

Pensa em mim
Protege o que eu te dou
Eu penso em ti
E dou-te o que de melhor eu sou
Sem ter defesas
Que me façam falhar
Nesse lugar mais dentro
Onde só chega quem não tem medo
De naufragar

Fica em mim
Que hoje o tempo dói
Como se arrancassem
Tudo o que já foi
E até o que virá
E até o que eu sonhei
Diz-me que vais guardar e abraçar
Tudo o que eu te dei

Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
E o mundo nos leve para longe de nós
E um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça
Num gesto só

Eu vou guardar cada lugar teu
Ancorado em cada lugar meu
E hoje apenas isso
Me faz acreditar
Que eu vou chegar contigo
Onde só chega quem não tem medo
De naufragar

Mafalda Veiga



É assim a juventude inebriante, em todas as suas tonalidades, na musicalidade das gargalhadas, cujos ecos se repercutem pelo resto da vida. É nestas memórias que a minha alma vai pousar quando o Outono da vida chegar, afastar as teias de aranha e o pó dos anos, sacudir-lhes a ternura, protegê-las das mágoas que a vida vai acumulando.
Neste momento dos nossos percursos, as incertezas são promessas de um futuro risonho, a insegurança é arrastada pela corrente das palavras e dos sorrisos, os medos e as mágoas têm a insignificância de graus de areia perdidos num deserto de sonhos. Ainda há tempo... Há sempre tempo... Para concretizarmos as nossas ambições loucas, os nossos segredos obscuros... Há tempo para mudarmos o mundo.
É esta a magia da vida... Os braços abertos, os sorrisos sinceros, os elogios espontâneos... É assim que vocês são, à parte as dores do mundo, e eu delicio-me na pureza da vossa entrega, na leveza dos vossos passos, na luminosidade dos laços que nos unem. A amizade agora é tão fácil, basta acreditar. E vocês acendem sóis na noite; no fascínio da ternura, lambem lágrimas à solidão; cantam e dançam os encontros e desencontros com a paixão de quem tem motivos para festejar. Somos D. Quixotes, de olhar preso no horizonte e os moinhos de vento fazem-nos rir, porque a vida é este momento, este em que estamos juntos e nada mais importa.
Nas minhas pegadas estão escritas as tardes ao sol, dissolvidas na placidez alegre da vida da vizinha e num refresco; as noites de futebol passadas entre um café e outro; os passeios junto ao mar, falando de estórias caladas pela nostalgia dos amores perdidos e de projectos de um amanhã que parece tão longínquo; os cafés fumegantes, os acordes de uma guitarra e uns pingos de chuva que testemunham romances nascidos para não se consumar; madrugadas alucinantes pelas ruas, braço dado, rumo à torpidez embriagada das tascas; manhãs que se levantam e nos apanham desprevenidos à saída de um bar qualquer, sem nos despedirmos da noite que passou; aulas partilhadas na solidariedade do cansaço e dos bilhetes trocados à socapa; sonos cúmplices; conversas esquecidas por entre o fumo de um cigarro... Pegadas que falam de vocês, das verdades que eu encontrei na simplicidade da vossa amizade.
É esta a minha juventude, que me faz adormecer de exaustão ao final do dia e acordar incondicionalmente com um sorriso no rosto. É este o sal dos nossos dias. Obrigada, meus queridos, por chegarem comigo “onde só chega quem não tem medo de naufragar”.

quinta-feira, abril 13, 2006

Fast food

Deixa-me rir

Essa história não é tua

Falas da festa do sol e do prazer

Mas nunca aceitaste um convite

Tens medo de te dar

Não é teu o que queres vender

Não...

Deixa-me rir

Tu nunca lambeste uma lágrima

Desconheces os cambiantes do seu sabor

Nunca seguiste a sua pista

Do regaço à nascente

Não me venhas falar de amor...

Pois é, pois é

Há quem viva escondido

A vida inteira

Domingo sabe de cor

O que vai dizer segunda-feira

Deixa-me rir

Nunca auscultaste esse engenho

De que falas com tanto apreço

Esse curioso alambique

Onde são destilados

Noite e dia

O choro e o riso

Deixa-me rir

Ou então deixa-me entrar em ti

Ser teu mestre só por um instante

Iluminar o teu refúgio

Aquecer-te essas mãos

Rasgar-te a máscara sufocante

Pois é, pois é

Há quem viva escondido

A vida inteira

Domingo sabe de cor

O que dizer segunda-feira

Jorge Palma

É triste a nossa sociedade de plástico, onde trocámos o amor pela paixão e a paixão pelo desejo. É triste acharmos que os sentimentos se consomem num leito, deitarmos ao vento verdades que se esqueceram de acontecer, porque quem as diz não as sente e quem as ouve não quer acreditar nelas. É triste termos esquecido a intensidade dos beijos, termos fechado os nossos olhares sob a cortina dos medos e das mágoas. É triste deixarmos as horas a queimar numa apatia feita de nada, só porque desistimos de procurar. Despimos a vida de noite e dia, de choro e de riso. Para nos protegermos... Deixamos de viver.

Por isso, deixa-me rir. Tu não sabes o que é rasgar a alma e deixar o coração despedaçado na calçada. Tu não sabes qual é a cor dos dias quando todas as estrelas se apagam. Tu não sabes o que é querer alcançar o infinito e esbarrar contra os horizontes claustrofóbicos da realidade. Tu não sabes falar de amor...

Ousa respirar por detrás dessa tua máscara, ousa verter a transparência do teu sorriso nos lábios de alguém, por uma vez... Só por uma vez... Ousa seres tu, exigir amor em troca de amor. Ousa ter asas, estar sedento de ternura e verás que isso não é loucura. Ousa viver!

terça-feira, abril 11, 2006

Amo.te Porto

Quem vem atravessa o rio
Junto à Serra do Pilar
Vê um velho casario
Que se estende até ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
És cascata sanjoanina
Erigida sobre um monte
No meio da neblina

Por ruelas e calçadas
Da ribeira até à foz
Por pedras sujas e gastas
E lampiões tristes e sós

Esse teu ar grave e sério
No rosto decantaria
Que nos oculta o mistério
Dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonado
Nesse timbre pardacento
Nesse teu jeito fechado
De quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
Em cada regresso a casa
Rever-te nessa altivez
De milhafre na asa

Rui Veloso/ Carlos Tê


És tu, belo e sóbrio, só tu, que estás enraizado em mim. E não importa quanta sede de mundo me desespere, nem o quão fascinada um dia me quede por alguma cidade; não importa quanto tempo permaneço nela, nem se continuo a voar... Serás tu sempre o chão, é sempre aqui que vou voltar.
Paris tem o romantismo das melodias melancólicas que o Sena arrasta ao passar e um céu pintado em tons de azul e magenta por pintores boémios que ainda deambulam por lá. Roma tem o cheiro da História nas paredes e a alegria barulhenta de pessoas que não pensam demais na vida. Amesterdão transpira uma beleza segura de si e cativa com promessas de novos mundos. E Londres, Nova Iorque, Berlim e... Todas elas e nenhuma em ti. Meu Porto sujo, meu Porto cinzento, meu Porto abandonado... Se não fosses assim, não eras o meu Porto.
Gosto de te olhar, frágil mas altivo, com o coração em ruínas mas o orgulho intacto. Por um momento, suspendo a respiração enquanto atravesso a ponte e te vejo aproximares-te devagar. És majestoso, na placidez sombria dos teus dias, no brilho inebriante das tuas noites. Envolves-me nos teus braços ternos, no teu cheiro a glórias amarrotadas pelo tempo e a mar, e eu sinto que é aqui que pertenço... Só em ti me sinto em casa. És como uma paixão antiga, aquela que se tatua sob a pele e nem o sal dos anos detiora. Meu velho e triste Porto, és alma em mim. Fundida em ti, posso esquecer-me de mim nas ruas e encontrar-me no norte de cada olhar, tão perdido em dúvidas e medos quanto eu. Olho as pessoas que desaparecem nas esquinas e as que assomam às portas protegida por uma sensação de familiaridade, há uma identidade comum que nos corre nas veias.
É sempre com prazer que te recebo, entrando-me pela janela, revolvendo indiscretamente os segredos que também são teus. É sempre com um sorriso que te encontro, que te percorro, que te descubro. Porque tu és um abrigo renovado, um mistério reinventado a cada manhã.
Trazes em ti a doçura do rio acariciando as encostas, a rebeldia das ondas despedaçando-se contra a foz, o cosmopolitismo das multidões anónimas, o misticismo dos parques onde os amantes se escondem dos olhares do mundo... Trazes no peito mil estórias de amor e de perda, pegadas vivas da existência de alguém. E é por isso que és tão intenso, porque ardes no fogo dos sentimentos verdadeiros.
Meu Porto, mágico de ilusões destroçadas, sobre ti construi o meu passado e, eu sei, conheces-me a alma pelos sinais. Em ti desaguarei um dia. Porque é esse o destino de quem ama...

quarta-feira, abril 05, 2006

Se um dia...

- E se um dia eu já não acreditar que ainda há algo que eu posso mudar?, disse ele repentinamente, como que acordado de um sonho.
Ela riu-se do seu ar grave, um riso embevecido. Ele ficou ofendido, como se não tivesse sido levado a sério a pergunta mais solene que alguma vez lhe havia feito.
- Ris-te, mas tu não sabes quanto tempo ainda temos de inocência, até quando poderemos acreditar nos outros, no mundo, mas principalmente em nós... Na nossa força... Cada dia que passa assistimos a mais uma injustiça, somos vítimas de outra desilusão, vemos os nossos esforços fracassar... Achas que os sonhos duram para sempre?, continuou, como que a justificar perante si mesmo o que acabara de perguntar.
Foi então que ela viu que ele falava a sério, que notou que a escuridão se dilatava nos seus olhos, suportando todas as dúvidas do mundo. Quase o abraçou, querendo protegê-lo dele próprio. Ficou a olhá-lo, deixando que no seu silêncio coubessem todas as certezas e anseios dele, criando um espaço onde ele se pudesse perder sem receio de ser julgado por isso.
- A cada dia tudo muda... É inútil acreditar que pudemos contribuir para um universo que cresce sem nós, que não espera por nós... Somos peões, milhares de peões... Um gesto, certo ou errado, não é decisivo.
Falava entusiasmado, embora o seu sorriso traísse um cansaço que ela não lhe conhecia. Ele estava diferente, já não era a pessoa cheia de ideais que preenchia as lacunas dos dias dela com imagens coloridas; tinha-se deixado vencer por uma sensibilidade pérfida que lhe mostrara as sombras do mundo antes de lhe dar as armas para lutar contra elas. Mas isso não a afastava, pelo contrário. Ela sentiu-se invadida por uma ternura infindável e uma vontade imensa de lhe iluminar um caminho.
- Sente os raios de sol escorrendo pelos teus cabelos, as estrelas que dançam nos teus olhos, sente o calor de um sentimento nas mãos, essas mesmas mãos que constróem a felicidade e a mágoa de alguém. Deixa que o dia entre ti, se propague em cada um dos teus poros e sente como é bom estar vivo. Há uma música que o sangue canta contra as tuas veias, há alma em cada um dos teus gestos... Apercebe-te que o nascer do dia de alguém depende deles. Deixa-te fascinar pela forma de andar, de sorrir, de acariciar de quem se cruza no teu caminho. Sente como é mágico amar alguém. Permite-te ver com outros olhos a vida que te rodeia, permite-te acreditar. Não tens que mudar o mundo, não tens que ser um herói. Todos os dias mudas um bocadinho a existência de alguém. E de que vale ser o ídolo abstracto de milhões, se podes ter alguém que te admire conhecendo quem realmente és? Alguém que reconheça os teus passos entre centenas de outros passos, que te encontre pelo cheiro no meio de uma multidão e oiça a tua voz até a dormir? Muda o teu pequeno mundo, sê o universo de alguém. Faz a diferença naquilo que és, naquilo que fazes os outros quererem ser por ti. É isso que realmente importa.
E foi então que ela viu umas asas crescerem no sorriso dele, foi então que o véu do medo se rasgou nos seus olhos e ela pôde ver de novo quem ele era antes da podridão do mundo se ter abatido sobre si. E, sorrindo consigo, pensou: Bem-vindo à vida, meu querido.