sexta-feira, abril 21, 2006

Letting go

Don’t be afraid of letting go...

Há minha volta pressinto a ânsia triste de todos aqueles que se habituaram a ver um rapaz bonito e alegre na televisão e que agora não sabem lidar com o vazio que ele deixou. Francisco Adam partiu. E até eu me sinto incomodada perante a ideia, embora a única familiaridade que tinha com ele era a de ver aquele rosto traquinas aparecer e desaparecer no écran durante uma ou outra sessão de zapping. Não é a perda que me preocupa, como os Expensive Soul dizem na música que - segundo me elucidaram - precedia as suas aparições na novela “falas disso, esquece isso”. As pessoas aproveitam o pretexto para chorar as suas mágoas, lamentam a vida que se esvaiu e que era desconhecida mas que lhes entrava em casa todos os dias através da pequena caixa mágica, fazem disso mote de conversa durante umas semanas e esquecem. Ironicamente, a mesma música continua “pensas que eu vou ficar por cá muito mais tempo, demasiado tarde, por isso aproveita este momento”. Francisco Adam foi uma pequena estrela que se apagou ou que deixámos de ver, mas que vai continuar a arder no coração de quem verdadeiramente o conheceu durante muito tempo. É essa a sua eternidade, a eternidade de todos nós...
O que mais choca em tudo isto é a juventude dele, como uma flor que é colhida quando ainda está a desabrochar. Não estamos preparados para perder alguém nesta altura, não conseguimos conceber que isso possa sequer ser possível. Sei bem a sensação de imortalidade que temos quando somos jovens, como se uma bolha invisível à nossa volta nos protegesse de todos os males do mundo. Eu bebo actimel e isso não impediu que naquela noite eu sentisse a vida escorregar-me por entre os dedos. Passaram 4 meses, mas não esqueço...
Não me parece que seja inconsciência. Simplesmente, a ânsia de abraçar o mundo, de o sorver, de alcançar a plenitude de cada momento é um apelo mais forte do que a prudência, que só o tempo traz. Nada nos acontece porque ainda temos muitos projectos, porque ainda queremos viajar, casar, ter filhos... Ainda pensamos tirar o tal curso de pintura, lutar por aquele trabalho com que sonhamos desde miúdos, comprar uma casa à beira-mar onde envelhecer... E é verdade que esse optimismo nos protege... A maioria das vezes, mas nem sempre.
Posso dizer que renasci, pelo menos é assim que sinto. Por um segundo, pensei que tudo estava perdido e dei-me conta de como amo esta vida. Foi um segundo, uma distracção por excesso de confiança, que paguei com sangue e lágrimas. Mas fui poupada e, de cada vez que fecho olhos e recordo a escuridão que me engoliu naquela noite sem estrelas, sentindo o medo tão entranhado na minha pele, agradeço por ainda estar aqui.
Que a morte do Francisco sirva para vos lembrar da fragilidade da nossa humanidade. Aproveitem o dia, cada dia, não adiem sonhos, não abdiquem do presente em prol de um futuro que é sempre incerto. Mas não se esqueçam, nem por um momento, que a vida é o nosso bem mais precioso e delicado e que por isso devemos protegê-la, mantê-la, cuidar dela. Porque “todos os momentos são brilhantes diamantes”...

terça-feira, abril 18, 2006

Juventude (em nome da Amizade)


Sei de cor cada lugar teu
Atado em mim
A cada lugar meu
Tento entender o rumo
Que a vida nos faz tomar
Tento esquecer a mágoa
Guardar só o que é bom de guardar

Pensa em mim
Protege o que eu te dou
Eu penso em ti
E dou-te o que de melhor eu sou
Sem ter defesas
Que me façam falhar
Nesse lugar mais dentro
Onde só chega quem não tem medo
De naufragar

Fica em mim
Que hoje o tempo dói
Como se arrancassem
Tudo o que já foi
E até o que virá
E até o que eu sonhei
Diz-me que vais guardar e abraçar
Tudo o que eu te dei

Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
E o mundo nos leve para longe de nós
E um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça
Num gesto só

Eu vou guardar cada lugar teu
Ancorado em cada lugar meu
E hoje apenas isso
Me faz acreditar
Que eu vou chegar contigo
Onde só chega quem não tem medo
De naufragar

Mafalda Veiga



É assim a juventude inebriante, em todas as suas tonalidades, na musicalidade das gargalhadas, cujos ecos se repercutem pelo resto da vida. É nestas memórias que a minha alma vai pousar quando o Outono da vida chegar, afastar as teias de aranha e o pó dos anos, sacudir-lhes a ternura, protegê-las das mágoas que a vida vai acumulando.
Neste momento dos nossos percursos, as incertezas são promessas de um futuro risonho, a insegurança é arrastada pela corrente das palavras e dos sorrisos, os medos e as mágoas têm a insignificância de graus de areia perdidos num deserto de sonhos. Ainda há tempo... Há sempre tempo... Para concretizarmos as nossas ambições loucas, os nossos segredos obscuros... Há tempo para mudarmos o mundo.
É esta a magia da vida... Os braços abertos, os sorrisos sinceros, os elogios espontâneos... É assim que vocês são, à parte as dores do mundo, e eu delicio-me na pureza da vossa entrega, na leveza dos vossos passos, na luminosidade dos laços que nos unem. A amizade agora é tão fácil, basta acreditar. E vocês acendem sóis na noite; no fascínio da ternura, lambem lágrimas à solidão; cantam e dançam os encontros e desencontros com a paixão de quem tem motivos para festejar. Somos D. Quixotes, de olhar preso no horizonte e os moinhos de vento fazem-nos rir, porque a vida é este momento, este em que estamos juntos e nada mais importa.
Nas minhas pegadas estão escritas as tardes ao sol, dissolvidas na placidez alegre da vida da vizinha e num refresco; as noites de futebol passadas entre um café e outro; os passeios junto ao mar, falando de estórias caladas pela nostalgia dos amores perdidos e de projectos de um amanhã que parece tão longínquo; os cafés fumegantes, os acordes de uma guitarra e uns pingos de chuva que testemunham romances nascidos para não se consumar; madrugadas alucinantes pelas ruas, braço dado, rumo à torpidez embriagada das tascas; manhãs que se levantam e nos apanham desprevenidos à saída de um bar qualquer, sem nos despedirmos da noite que passou; aulas partilhadas na solidariedade do cansaço e dos bilhetes trocados à socapa; sonos cúmplices; conversas esquecidas por entre o fumo de um cigarro... Pegadas que falam de vocês, das verdades que eu encontrei na simplicidade da vossa amizade.
É esta a minha juventude, que me faz adormecer de exaustão ao final do dia e acordar incondicionalmente com um sorriso no rosto. É este o sal dos nossos dias. Obrigada, meus queridos, por chegarem comigo “onde só chega quem não tem medo de naufragar”.

quinta-feira, abril 13, 2006

Fast food

Deixa-me rir

Essa história não é tua

Falas da festa do sol e do prazer

Mas nunca aceitaste um convite

Tens medo de te dar

Não é teu o que queres vender

Não...

Deixa-me rir

Tu nunca lambeste uma lágrima

Desconheces os cambiantes do seu sabor

Nunca seguiste a sua pista

Do regaço à nascente

Não me venhas falar de amor...

Pois é, pois é

Há quem viva escondido

A vida inteira

Domingo sabe de cor

O que vai dizer segunda-feira

Deixa-me rir

Nunca auscultaste esse engenho

De que falas com tanto apreço

Esse curioso alambique

Onde são destilados

Noite e dia

O choro e o riso

Deixa-me rir

Ou então deixa-me entrar em ti

Ser teu mestre só por um instante

Iluminar o teu refúgio

Aquecer-te essas mãos

Rasgar-te a máscara sufocante

Pois é, pois é

Há quem viva escondido

A vida inteira

Domingo sabe de cor

O que dizer segunda-feira

Jorge Palma

É triste a nossa sociedade de plástico, onde trocámos o amor pela paixão e a paixão pelo desejo. É triste acharmos que os sentimentos se consomem num leito, deitarmos ao vento verdades que se esqueceram de acontecer, porque quem as diz não as sente e quem as ouve não quer acreditar nelas. É triste termos esquecido a intensidade dos beijos, termos fechado os nossos olhares sob a cortina dos medos e das mágoas. É triste deixarmos as horas a queimar numa apatia feita de nada, só porque desistimos de procurar. Despimos a vida de noite e dia, de choro e de riso. Para nos protegermos... Deixamos de viver.

Por isso, deixa-me rir. Tu não sabes o que é rasgar a alma e deixar o coração despedaçado na calçada. Tu não sabes qual é a cor dos dias quando todas as estrelas se apagam. Tu não sabes o que é querer alcançar o infinito e esbarrar contra os horizontes claustrofóbicos da realidade. Tu não sabes falar de amor...

Ousa respirar por detrás dessa tua máscara, ousa verter a transparência do teu sorriso nos lábios de alguém, por uma vez... Só por uma vez... Ousa seres tu, exigir amor em troca de amor. Ousa ter asas, estar sedento de ternura e verás que isso não é loucura. Ousa viver!

terça-feira, abril 11, 2006

Amo.te Porto

Quem vem atravessa o rio
Junto à Serra do Pilar
Vê um velho casario
Que se estende até ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
És cascata sanjoanina
Erigida sobre um monte
No meio da neblina

Por ruelas e calçadas
Da ribeira até à foz
Por pedras sujas e gastas
E lampiões tristes e sós

Esse teu ar grave e sério
No rosto decantaria
Que nos oculta o mistério
Dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonado
Nesse timbre pardacento
Nesse teu jeito fechado
De quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
Em cada regresso a casa
Rever-te nessa altivez
De milhafre na asa

Rui Veloso/ Carlos Tê


És tu, belo e sóbrio, só tu, que estás enraizado em mim. E não importa quanta sede de mundo me desespere, nem o quão fascinada um dia me quede por alguma cidade; não importa quanto tempo permaneço nela, nem se continuo a voar... Serás tu sempre o chão, é sempre aqui que vou voltar.
Paris tem o romantismo das melodias melancólicas que o Sena arrasta ao passar e um céu pintado em tons de azul e magenta por pintores boémios que ainda deambulam por lá. Roma tem o cheiro da História nas paredes e a alegria barulhenta de pessoas que não pensam demais na vida. Amesterdão transpira uma beleza segura de si e cativa com promessas de novos mundos. E Londres, Nova Iorque, Berlim e... Todas elas e nenhuma em ti. Meu Porto sujo, meu Porto cinzento, meu Porto abandonado... Se não fosses assim, não eras o meu Porto.
Gosto de te olhar, frágil mas altivo, com o coração em ruínas mas o orgulho intacto. Por um momento, suspendo a respiração enquanto atravesso a ponte e te vejo aproximares-te devagar. És majestoso, na placidez sombria dos teus dias, no brilho inebriante das tuas noites. Envolves-me nos teus braços ternos, no teu cheiro a glórias amarrotadas pelo tempo e a mar, e eu sinto que é aqui que pertenço... Só em ti me sinto em casa. És como uma paixão antiga, aquela que se tatua sob a pele e nem o sal dos anos detiora. Meu velho e triste Porto, és alma em mim. Fundida em ti, posso esquecer-me de mim nas ruas e encontrar-me no norte de cada olhar, tão perdido em dúvidas e medos quanto eu. Olho as pessoas que desaparecem nas esquinas e as que assomam às portas protegida por uma sensação de familiaridade, há uma identidade comum que nos corre nas veias.
É sempre com prazer que te recebo, entrando-me pela janela, revolvendo indiscretamente os segredos que também são teus. É sempre com um sorriso que te encontro, que te percorro, que te descubro. Porque tu és um abrigo renovado, um mistério reinventado a cada manhã.
Trazes em ti a doçura do rio acariciando as encostas, a rebeldia das ondas despedaçando-se contra a foz, o cosmopolitismo das multidões anónimas, o misticismo dos parques onde os amantes se escondem dos olhares do mundo... Trazes no peito mil estórias de amor e de perda, pegadas vivas da existência de alguém. E é por isso que és tão intenso, porque ardes no fogo dos sentimentos verdadeiros.
Meu Porto, mágico de ilusões destroçadas, sobre ti construi o meu passado e, eu sei, conheces-me a alma pelos sinais. Em ti desaguarei um dia. Porque é esse o destino de quem ama...

quarta-feira, abril 05, 2006

Se um dia...

- E se um dia eu já não acreditar que ainda há algo que eu posso mudar?, disse ele repentinamente, como que acordado de um sonho.
Ela riu-se do seu ar grave, um riso embevecido. Ele ficou ofendido, como se não tivesse sido levado a sério a pergunta mais solene que alguma vez lhe havia feito.
- Ris-te, mas tu não sabes quanto tempo ainda temos de inocência, até quando poderemos acreditar nos outros, no mundo, mas principalmente em nós... Na nossa força... Cada dia que passa assistimos a mais uma injustiça, somos vítimas de outra desilusão, vemos os nossos esforços fracassar... Achas que os sonhos duram para sempre?, continuou, como que a justificar perante si mesmo o que acabara de perguntar.
Foi então que ela viu que ele falava a sério, que notou que a escuridão se dilatava nos seus olhos, suportando todas as dúvidas do mundo. Quase o abraçou, querendo protegê-lo dele próprio. Ficou a olhá-lo, deixando que no seu silêncio coubessem todas as certezas e anseios dele, criando um espaço onde ele se pudesse perder sem receio de ser julgado por isso.
- A cada dia tudo muda... É inútil acreditar que pudemos contribuir para um universo que cresce sem nós, que não espera por nós... Somos peões, milhares de peões... Um gesto, certo ou errado, não é decisivo.
Falava entusiasmado, embora o seu sorriso traísse um cansaço que ela não lhe conhecia. Ele estava diferente, já não era a pessoa cheia de ideais que preenchia as lacunas dos dias dela com imagens coloridas; tinha-se deixado vencer por uma sensibilidade pérfida que lhe mostrara as sombras do mundo antes de lhe dar as armas para lutar contra elas. Mas isso não a afastava, pelo contrário. Ela sentiu-se invadida por uma ternura infindável e uma vontade imensa de lhe iluminar um caminho.
- Sente os raios de sol escorrendo pelos teus cabelos, as estrelas que dançam nos teus olhos, sente o calor de um sentimento nas mãos, essas mesmas mãos que constróem a felicidade e a mágoa de alguém. Deixa que o dia entre ti, se propague em cada um dos teus poros e sente como é bom estar vivo. Há uma música que o sangue canta contra as tuas veias, há alma em cada um dos teus gestos... Apercebe-te que o nascer do dia de alguém depende deles. Deixa-te fascinar pela forma de andar, de sorrir, de acariciar de quem se cruza no teu caminho. Sente como é mágico amar alguém. Permite-te ver com outros olhos a vida que te rodeia, permite-te acreditar. Não tens que mudar o mundo, não tens que ser um herói. Todos os dias mudas um bocadinho a existência de alguém. E de que vale ser o ídolo abstracto de milhões, se podes ter alguém que te admire conhecendo quem realmente és? Alguém que reconheça os teus passos entre centenas de outros passos, que te encontre pelo cheiro no meio de uma multidão e oiça a tua voz até a dormir? Muda o teu pequeno mundo, sê o universo de alguém. Faz a diferença naquilo que és, naquilo que fazes os outros quererem ser por ti. É isso que realmente importa.
E foi então que ela viu umas asas crescerem no sorriso dele, foi então que o véu do medo se rasgou nos seus olhos e ela pôde ver de novo quem ele era antes da podridão do mundo se ter abatido sobre si. E, sorrindo consigo, pensou: Bem-vindo à vida, meu querido.

terça-feira, março 28, 2006

O deambular da ilusão




Às vezes dou por mim a ver-me como mais um dos derrotados da vida. Fernando Pessoa, Fernando Pessoa, Fernando Pessoa... Como um analgésico. É cedo para termos esta conversa, não é? A juventude ainda nos pulsa nas veias, o sabor intenso de um mundo novo, trazemos a vertigem das emoções nos lábios cerrados... E ainda assim aquela sensação que nos assalta de que já conhecemos o fim. Não me digas que não pensas o mesmo, vejo-o nos teus olhos. Tanto sofrimento à nossa volta!... A beleza desprevenida nos rostos alheios, a leveza dos dias, mas quantos desejos reprimidos por trás de cada sorriso. Não foi isto que nós sonhámos, não finjas que não estás a perceber. Eu agarro-me a ti para que me digas que há um sentido, às nossas fantasias, estranhas quimeras, mas tu olhas para mim... E eu vejo que estamos os dois tão perdidos!
Sabes quantas vezes acreditei e em quantas delas perdi a aposta? Sabes quantas confiei e me desiludiram? Dei por certos passos que me falharam. Não quero ouvir-te dizer que é este o caminho, que é a vida dos adultos, eu nem sou adulta, nem quero isto para mim. Essas pessoas... Essas que me dizem tanto, que povoam os meus dias, que vivem a mesma realidade que eu... Pensas que é fácil ver-lhes os risos desfazerem-se em estilhaços, apanhar-lhes os cacos e dizer “deixa lá, é assim a vida, isso passa”? Pensas que não revolta, que não apetece devolver-lhes os sonhos intactos, mas tudo é uma ilusão... O nosso deambular da ilusão.
Pensei que encontraríamos o caminho, um dia. Pensei que estávamos a projectar os nossos sonhos no futuro, mas afinal eram só as inseguranças que reflectíamos. Agora vejo-me cara a cara com os meus fantasmas e sento-me à mesa com eles. Admite que isso não fazia parte dos nossos planos. Não é necessariamente mau, não é tudo intrinsecamente mau. É só esquisito, esquisito que depois de tantas subidas e descidas ainda me procure por aí. Esquisito que o mundo continue a escorregar-nos como areia entre os dedos e que, no sentido inverso, a nossa ânsia de o segurar se vá desintegrando em pedacinhos coloridos que brilham por um instante diante dos nossos olhos e desaparecem. Deixo-os ir com a corrente dos pensamentos reciclados e dos instintos falhados. Cansei-me de batalhas perdidas. Diz-me se ainda acreditas nos mistérios que, um a um, ainda vamos desvendar. Se o nosso clube das chaves tem coragem suficiente para continuar. Ou se nos cansámos tão cedo das contradições de uma existência banal.
Quero beber a essência das coisas, a violência dos sentimentos, a intensidade dos momentos, que nos esgotam e renovam. Quero o que ainda há por oferecer. Venham as ilusões, se preciso delas para viver. Deambulando por aí, vou-me encontrando em mim. Entre o cansaço de um momento e outro, entre as revoltas e as frustrações, há a magia das coisas simples, daquele olhar, de uma conversa esfumada no tempo, da cinza das memórias que as horas arrastam... Não estaremos derrotados enquanto estivermos vivos.

segunda-feira, março 27, 2006

Saudades de mim


Ai que saudades de mim
De me sentir em mim,
Autêntica e inteira,
Personificada

Que saudades de me enganar no caminho
E ser esse o meu destino
Ou talvez não

Saudades de me perder nas ruas
E me encontrar na esquina
De um sentimento qualquer
A fazer contas à vida
Sem me aperceber
Que há tanto que ainda quero viver

Mas aos pedaços eu não me encontro
Se memórias bafientas e vozes abafadas
Me deixam desarticulada
Por isso bato a porta aos fantasmas
Bato a porta e apago a luz
Hoje fico só comigo

É como romper a bolha que me envolve
E respirar de novo
Emergir à superfície de um sonho escuro
Tocar-me e ser eu
Ainda eu, apesar de tudo

Que saudades de mim...

quarta-feira, março 22, 2006

Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho
Cada momento mudei
Continuamente me estranho
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma, não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,


Atento ao que sou e vejo
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem
Assisto à minha passagem
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.


Por isso, alheio, vou lendo,
Como páginas, meu ser.
O que se segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto a margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.


Fernando Pessoa


Quem sou eu na imensidão destes desejos contrários... de sonhos de pernas para o ar... e sentimentos paradoxais? Quem sou eu, diz-me tu que me levaste, que me trazes no peito sem me saber decifrar. Sou e não sou... Gosto e não gosto... Quero e não quero... E em tudo esta dualidade permanente, tu sabes, desconcertante. Entusiasmada ou entediada, olho-me mas jamais me leio, se tudo em mim são frases soltas que, um dia quem sabe, poderão fazer sentido. Continuo a procurar-me, sem nunca saber quem sou. Na minha demanda incansável por respostas, uma adolescência eterna. Doce é o sabor de novidade que há em tudo e vibro, num conhecimento virgem do mundo. Maravilho-me, reinvento-me, vivo de intensidade, de tempestades, de vertigens de prata. Há quem se espante, há quem comente, há quem já tenha tentado deixar de perceber... Se tudo é tão imprevisível, as sombras que alastram e as estrelas que desatam a brilhar, o riso e as lágrimas, os bocados de mim que vou deixando aqui e ali... E às vezes acho que já nem tento saber quem sou ou porque estou ou se quero estar. “Eu sou eu e as minhas circunstâncias”, disse alguém. Sim, eu sou este momento e tudo o que ele comporta. Amanhã... Bem, logo se verá.

sexta-feira, março 10, 2006

Tu és aquele amigo...


Tu sabes que sim, que és. Sei que já o repeti vezes sem conta, sei que sabes de cor como os meus olhos sorriem quando o digo e penso... Como poderia viver sem ti? Ontem foi aquele dia... Quanto tempo o esperámos? Ontem provaste-me que os sonhos podem ser chão se a mente não perder a capacidade de ser ar. Não sei quem és, não quero saber. Sei quem és para mim (e não é isso que importa?), sei que a nossa amizade é inquebrável... Soube-o ontem... Senti-o quando toquei a tua felicidade no meu peito e pareceu-me que sempre caminhámos para aquele momento... Sentiste o mesmo? Tantos sonhos partilhados, conversas intermináveis, dúvidas e quantas perguntas sem resposta... Se nós soubessemos que tudo desaguaria ali... E ainda assim é tão autêntico e eu sei que és tu vertido naquelas páginas, não tu o Pedro, mas tu o João mais profundo, os pensamentos, as hesitações, as incertezas... O meu amigo, aquele que me lê nos olhos, que tem o meu caminho escrito na palma da mão. E houve uma altura em que senti que a emoção era não saber como o exprimir melhor do que aquele sorriso aberto e um abraço (dizia tanta coisa...). E dizer-te que sempre soube que chegarias ali e que a minha felicidade é por ti. Tu mostraste-me que é legítimo sonhar. Adoro-te... Mas isso, tu sabes.

quarta-feira, março 08, 2006

Fadas

Alguém disse uma vez que ser mulher era extraordinário porque podíamos fazer tudo o que os homens fazem... E ainda de saltos altos. Sim, ser mulher é ter conquistado uma posição de igualdade, de complementaridade, e fazê-lo com elegância. É estar-se consciente da graciosidade de cada movimento, mas ainda assim deixá-los fluidos, como se fossem quase por descuido. Ser mulher é ser de uma beleza delicada, de uma fragilidade que instiga os instintos mais primários de protecção, e guardar nos recônditos secretos a maior força da natureza. Todos sabemos que - até biologicamente - as mulheres são mais resistentes que os homens, mas nós gostamos de vos deixar acreditar que nos podem defender e por isso deixarmos que nos abracem e nos resguardem dos nossos próprios medos. Que a maior debilidade da mulher é o medo da solidão, quando se tem o peito a transbordar de ousadia e de sonhos românticos. Ser mulher é ser-se assim, paradoxal, é ter-se mãos que arrancam raízes à dor e que acariciam, ter corações que se partem e que se reconstruem, asas que se quebram e se voltam a colar... E, mesmo aos pedaços, a mulher continua inteira, ingénua o suficiente para acreditar, doce demais para perder a capacidade de amar... A mulher permanece sempre igual a si mesma, indiferente às estaladas da vida, que são sal e não pedra, que lhe dão experiência mas não lhe retiram o brilho.
Confesso sinceramente que admiro as mulheres, desde o início, desde quando sustentavam a sociedade sem que o mérito lhes fosse reconhecido, por todos os séculos que foram pisadas, humilhadas, subestimadas e lutaram e choraram e aguentaram caladas, até ao dia em que alguém ousou voar mais alto. Esses seres trazem em si a semente do universo, são capazes de dar vida... E não será esse o maior milagre da humanidade?
Eu tenho orgulho em ser mulher. Tenho orgulho nas conquistas de cada dia, sempre que ganho mais um pouco de terreno à ignominia e ao preconceito, sempre que me afirmo como sou e me faço aceitar assim. E orgulho-me, da mesma forma, dos rios de mel que me correm nas veias, da capacidade de me deslumbrar, de me entregar, de acreditar... Mesmo depois de tudo.
Todos nós, homens ou mulheres, sabemos que há um elo, aquele elo, que nos une a um ser especial em todo o universo. E éramos capazes de reconhecê-lo pelo cheiro, pela voz, pelo carinho que transborda em cada um dos seus gestos, que nos embalam, que nos confortam, que nos acalmam como nenhum outro. As mulheres que nos receberam, que nos amaram, que nos ensinaram os primeiros passos num mundo incerto. Para mim, será esse o rosto que eu verei sempre que abrir os olhos, como na primeira vez, porque nele habita a luz do mundo. Não há abrigo que me possa proteger melhor, não há sentimento que possa ser mais forte, não há nada que eu deseje mais do que a presença dela.

Porque ela é uma Mulher, porque me ensinou a ser a mulher, porque o mundo é mais bonito sempre que há mulheres a deambularem por aí, como pequenas fadas...

Não deixem passar em branco este Dia da Mulher!

segunda-feira, março 06, 2006

Fios de luz


Hoje adormeceste no meu colo... Sereno, seguro, sabendo que eu nunca te poderia magoar. Abraçaste-me e deixaste-me embalar-te, sem imaginares que as pálpebras que te descaíam guardavam por momentos a magia do mundo. Pelo menos, do meu.
Agora, enquanto dormes, não sabes - nem poderias saber - que quando me estendes os braços, quando tentas dizer o meu nome e te enganas, na atrapalhação curiosa das crianças, derramas no meu peito gotas suaves de ternura e que elas me insuflam de vida. Tu não sabes que afastas as sombras com esse sorriso que se prolonga no olhar, não sabes, meu pequeno, e ainda bem. A tua alegria preenche as lacunas da realidade, a tua vitalidade desperta os instintos preguiçosos que se acomodaram à rotina de viver e essa tua delicada fragilidade arranca mil braços à noite para te defender.
É verdade que a primeira vez que apertaste o meu dedo na mão me agarraste para sempre, que quando confiaste um novo dia nasceu dentro de mim e isso devo-o a ti, ao dia em que adormeceste no meu colo e teceste um fio de luz entre nós. Dorme, bebé, eu vou estar a olhar por ti...

sábado, fevereiro 18, 2006

Este tipo de cansaço...

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

Não há nada que eu deva dizer, nenhuma palavra a acrescentar... Houve alguém que já disse tudo por mim. Cansaço... Do u feel the same?

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Brokeback mountain


Que mundo é este que não tolera a diferença? Mas se somos nós que vivemos nele, que o absorvemos e o repetimos em cada gesto espontâneo ou racional... Então porque nos fechamos à mudança, porque caminhamos em círculos, reféns dos nossos próprios preconceitos? Se tu não és igual a mim, o que é que faz de ti errado? Errado é continuam a manter pessoas soterradas em medos, debaixo de dedos apontados, é a caça às bruxas deste século. Quero uma sociedade de liberdade efectiva, quero pessoas honestas consigo próprias, porque a insegurança é a maior arma de arremesso. Deixem a essência das coisas emergir, que cada um se assuma na sua identidade única, sem se sentirem ameaçados por isso. Só temo a hipocrisia... Porque a alimentamos? Diz-me que mal há em ser-se do contra, em vestir a roupa do avesso, em andar-s de pernas para o ar! De que me servem leis se as consciências contam uma história diferente? Dêem-me pessoas autênticas, sentimentos verdadeiros que não precisam de se esconder do mundo e nem afogam em culpas que não são deles. Porque deverá alguém envergonhar-se do amor que sente, se ele for profundo, se for sincero, se for o seu sangue e alma. O que há de tão estranho nisso? Ainda que eu me confunda nessa massa homogénea que o mundo fabrica e educa dia após dia, agrada-me a diversidade, as vozes que não entoam a mesma melodia... O que há de belo no mundo é o sim e o não e haja quem saiba dizer não... Quero o direito à diferença!

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

And that's the way it is...

Partículas de sonhos brilham em mil cores à minha volta... E eu agarro-as e rio e aperto-as contra mim... A esperança perdida, a magia esquecida, o meu mundo a desabrochar, voltou tudo e pulsa tão intensamente no meu peito! Quero ser a vida que me escorregava por entre os dedos e sentir cada segundo que passa por mim, retribuir cada sorriso, descobrir mistérios indecifráveis em cada um dos olhares que pousam no meu e me pedem ajuda e voam para longe. É bom estar de volta, abraçar com força esta nova oportunidade de ser feliz e reconhecer-me nas pegadas que vou deixando para trás. Eu de novo, exactamente igual a mim. FDUP... Nunca pensei que me pudesse prender tanto a um lugar, ao que dele emana, a essa paixão comum que nos une, que nos torna tão iguais. Tenho a juventude e a pressa de viver, inflamam-nas os vossos risos e essa cumplicidade que por vezes me faz acreditar que partilhámos uma vida inteira. É bom estar de volta e não ter medo de arriscar, as cicatrizes são parte daquilo que sou, histórias que não vos vou contar, mas que vocês sabem, pressentem, acolhem em surdina, um segredo só nosso... E eu sei que convosco elas estão seguras. Convosco eu estou segura, eu estou em casa...

Liberdade


Ainda hoje não sei se nasci sob o signo da liberdade ou se foi a educação que me deram que me fez assim... Já vi tantas coisas na minha curta existência, praias paradisíacas e tesouros incalculáveis, já toquei obras de homens que mudaram a história, estive em cidades onde faz sempre frio, cidades que foram reconstruídas e outras que vão desaparecer, conheci pessoas que cantam e dançam para espantar a tristeza, pessoas que vendem a alma porque lhes roubaram a oportunidade de serem gente e outras que vivem despreocupadamente uma vida normal. Sempre gostei de observar as pessoas e as casas, cada luzinha acesa uma história para contar, cada olhar uma mágoa, um amor escondido, um segredo por revelar. E há tanta diversidade neste mundo! É perfeito... Tudo tão perfeito... E eu tenho tantos sonhos que eles quase nem cabem no meu peito e ainda assim nunca falei deles, é minha identidade secreta, aquilo que tenho de mais meu e, às vezes, tenho medo que seja incompreendido. Quero tanto voar, tenho a alma livre e o desejo intenso de absorver cada pedaço de terra, a ânsia de procurar as minhas origens, que não são de lado nenhum, eu sou do mundo e ele é meu. Conhecer, conhecer, conhecer... Até me vencer o cansaço.

Só o Amor é real...

Saltas muros e barreiras
colhes frutos amargos.
Deixas-te levar,
fechas, e abres os olhos de novo.
Tudo permanece igual,
assustadoramente igual...
Inócuo, vazio...
Dás voltas nesse vazio que te espreme a alma,
falta-te a força que te prende ao chão
flutuas num deambular solitário
por sonhos e anseios,
por memórias e sentimentos,
por instintos e anseios,
sorris enquanto deambulas no teu sonhar
choras por não poderes projectá-lo no teu mundo palpável,
no amor, no ombro porque anseias.
Mas um dia, vais ver...
Um dia poderás chorar todas essas mágoas,
vencer todos os muros e barreiras,
apagar com um beijo o trago amargo que trazes,
abrir os olhos de novo e veres o mundo transbordar de vida,
sentires-te no teu chão e a sorrir de felicidade.
E projectar todos os teus sonhos, sentimentos, estímulos e anseios,
nesse ombro que te acolhe como um berço
indestrutível, eterno, arrebatadoramente aconchegante...
Nesse dia que há-de chegar,
hás-de sentir a luz em ti
e saberás qual o teu caminho...

João


Se um dia acordo e não reconheço o meu mundo em destroços; se tudo o que antes fez sentido, agora se confunde na poeira das horas vazias e a noite me apanha assim, desprevenida... ergo os olhos para o céu e há sempre estrelas, pequenas luzinhas, quase passam despercebidas, mas nunca deixaram de lá estar, para mim, para o dia em que o chão me falta. Vão-se acendendo, uma a uma, os abraços - nunca demais -, as palavras - sempre doces - e aquela capacidade de arrancarem um sorriso à dor... Amigos são pedacinhos de céu e, quando viram o mundo ao contrário só para se encontrarem com a minha perspectiva, eu sei que só o Amor é real. Sinto a força deles, que me embala, que me empurra para a frente, e sei que não poderei estar triste enquanto houver estrelas a brilhar...

Obrigada, João, por me teres aceitado, compreendido e gostado de mim como eu sou, por deres lustrado os meus sonhos quando desisti de os sonhar e mos teres devolvido, com um sorriso, para os voltar a agarrar.

Obrigada a todos aqueles que enchem os meus dias de cor... Este espaço é para vocês. Se conseguir um sorriso, terá valido a pena.